22 de mar. de 2011

Minimalismo

Yellow eyes!
Foto por Valentine Fonseca

Ele me lembra alguém, esses olhos rasgados que transformam-o quase em felino me lembram alguém que amei há bastante tempo - tanto tempo sem amar que nem bem lembro do gosto - mas esse olhar, esse olhar e esse jeito de andar - reparo agora que se levantou - manso desse jeito, andar de gato, como se já não bastassem o par de olhos rasgados. Furtivamente observo-o. Furtivamente desejo-o. Obssessivamente contemplo-o como quem contempla um quadro recém acabado, resquício de tinta amarela ainda fresca pingando do dedo. E no silêncio do meu olhar o amo, talvez por isso o amo, tanto seus olhos de gato, tanto seu andar macio, tanto a lembrança de alguém que amei - faz tanto tempo - o amo tão somente pela certeza de que nunca poderei tê-lo aos pedaços. Só quero os pedaços. O amor por inteiro - faz mesmo tanto tempo - já não me importa mais.

27 de fev. de 2011

Desiderata

Quando dei por mim, estava morta. Atirada displicentemente no sofá da sala, boca escancarada como num convite ao demônio, olhos cerrados como se não ousasse ver a face do meu assassino. Morta, assim, atirada displicentemente no sofá da sala, como se já não estivesse morta muito antes, talvez sempre, desde que conhecida como viva, enfiada em vestidos vermelhos e sorrisos amarelos como se para desfarçar a minha falta de cor. Sempre morta, sempre ciente que morta, sempre descrente que depois de morta e atirada displicentemente no sofá da sala, a vida enfim vivida e terminada faria algum sentido, mas até agora não fez e não fará, diria uma mulher razoável, mas eu nunca fui uma mulher razoável. Nem agora depois de morta e atirada displicentemente no sofá da sala com uma faca cravada na garganta partindo a minha fé em duas. C'est la vie, um samba antigo toca na rádio do vizinho que eu nunca fui com a cara e daqui a pouco tempo, talvez minutos, a empregada topará comigo e maldirá a limpeza do assoalho empapado de sangue e eu não quero mais assistir o quadro da minha morte, não mais ver meu corpo atirado displicentemente no sofá da sala, já que agora eu sei - mas é como se eu sempre soubesse - que o único sentido da minha morte é a consciência de nunca antes ter estado viva.

23 de dez. de 2010

Overdose

7 de nov. de 2010

Chaos


Única superfície plana a refletir, como um lago de águas transparentes, eu, cristal d'água, que espero paralelo ao vai e vem da margem, sem ser, sem ser. Superfície plácida, eu, sem sequer uma nesga que me dê um sentido, sem sequer uma onda que me tire do meu silêncio, por muito tempo silente, sem voz, sem voz. Daí então, de repente, caído do céu talvez das patas de uma ave de rapina qualquer ou arremessada por alguém incauto, uma pedra me rompe. Me abre, me viola como a um lacre e eu deixo de ser lisa e plana e calma e passo a ser o caos. A ser incoerência, sem começo, sem final. Mas não demora a minha água a se acalmar; não demora meus anéis de desordem se tornarem um só, e depois eu - única superfíce plana a refletir - não mais reflito, me parto em mil cacos de mim. Vivo. E se me perguntassem - e se eu, como um rio, respondesse, diria algo como - meu caos, meus caros, nada mais é que ter que esperar novamente pela pedra que vai me tirar do meu vazio.