23 de dez de 2010

Overdose

7 de nov de 2010

Chaos


Única superfície plana a refletir, como um lago de águas transparentes, eu, cristal d'água, que espero paralelo ao vai e vem da margem, sem ser, sem ser. Superfície plácida, eu, sem sequer uma nesga que me dê um sentido, sem sequer uma onda que me tire do meu silêncio, por muito tempo silente, sem voz, sem voz. Daí então, de repente, caído do céu talvez das patas de uma ave de rapina qualquer ou arremessada por alguém incauto, uma pedra me rompe. Me abre, me viola como a um lacre e eu deixo de ser lisa e plana e calma e passo a ser o caos. A ser incoerência, sem começo, sem final. Mas não demora a minha água a se acalmar; não demora meus anéis de desordem se tornarem um só, e depois eu - única superfíce plana a refletir - não mais reflito, me parto em mil cacos de mim. Vivo. E se me perguntassem - e se eu, como um rio, respondesse, diria algo como - meu caos, meus caros, nada mais é que ter que esperar novamente pela pedra que vai me tirar do meu vazio.

20 de out de 2010

Cantiga de Acordar*

A chuva cor de nada
Acorda a menina danada
Molhando o vestido de chita trançado
Com a corda do seu namorado
Acorda menina danada!
Que a chuva acabou de passar
E o sol tá parado
Na porta do quarto
Pro' seu vestido secar!



*Cantiga que fiz a uns 2 anos atrás pra Maria do Céu, Remédios, Carmem Lúcia, ou seja lá qual for o nome da filha que eu ainda não tive.

19 de set de 2010

Tu, moça

Anseio do meu coração, tu, moça, e esse teu vestido branco tão branco quanto eu conseguiria me lembrar, depois desse teu vestido branco o branco dos dentes das negras de carne macia que eu aperto com tesão semana sim semana não nos becos pertos do cais não são tão brancos, nem brancos como é a espuma do mar que rebenta nas pedras da praia, nem a espuma é tão branca quanto teu vestido, moça, e esse teu sorriso! nada faz fugir o teu sorriso que mora grudado nas minhas retinas feito filme projetado na tela suja do drive in que eu tanto bolinei mulheres macias, não tão macias quanto tu, moça, não tão belas, não tão adoráveis, nem com pernas tão roliças quanto as tuas ah! tuas pernas grossas e tua sandália de couro amarrada nas tuas canelas grossas, tiras de couro marrom como o marrom dos teus mamilos com gosto de flor, como tu, moça, és flor até nos mamilos, da cabeça aos pés és flor, como eu te gosto, moça, como eu te desejo mais que a qualquer outra coisa, se eu pudesse ah! se eu pudesse te ter exatamente agora, se eu não tivesse tão bêbado por causa de ti e eu me pergunto, moça, se tu me amasse um dia? e eu aqui bêbado pensando em ti e tu muito provavelmente embaixo de algum homem negro branco mulato pobre estivador como eu, miserável como eu e provavelmente apaixonado por ti como eu e como tantos miseráveis que se deixam apaixonar por ti, no teu quarto com móveis velhos corroídos pela maresia e cheiro forte de sardinha e mofo e mijo e porra e teu, teu aroma de flor, és flor, moça, horizontalmente flor, minha mesmo que por alguns trocados e por algumas horas, minha, tu, moça, anseio do meu coração.

31 de ago de 2010

Abatida


Lobo, não me peça pra mostrar a minha marca de mulher lamentável. Minha ferida aberta destoando do meu corpo fechado. Sou um pedaço do fígado de Prometeu, dilacerado, esperando o dia nascer pra com ele nascer e nascer e nascer e morrer de novo. Fui abatida. Feito lebre, em tempos de caça. Pele macia, você me diz e me beija, feito lebre em tempos de caça, e se deita comigo e me chama de linda, feito lebre em tempos de caça, e eu morro, caçada. Já é ruim o bastante sem você, não me peça isso, vá embora, e você me beija e me puxa pra mais perto, perto o bastante pra eu sentir a sua respiração na minha nuca, meu corpo febril apertado contra o seu, lebre, meu coração batendo no seu peito, vá embora. Já é ruim o bastante com você. Sou um pedaço de carne que fuma e bebe até altas horas da madrugada e se droga e pensa em você e eu não podia estar pensando - que horas seriam?, era pra você ter ido embora. A lebre corre nos tempos de caça, me arrepio pensando em você, a lebre foge nos tempos de caça, tenho tanto medo, a lebre morre nos tempos de caça, será que você volta?, nunca mais. Fui abatida. Abatida, devorada e deglutida como lebre em tempos de caça.

29 de ago de 2010

Seu Nome

Lembro Seu Nome e a velocidade em que as coisas passam pela minha cabeça - Seu Rosto, Seu Corpo, Seu Cheiro, Seu Jeito, Você - me deixa tonta. Tonta, tento pensar, mas Seu Nome não desgruda do meu ouvido, e se eu tivesse como me transformar em algo naquele segundo seria em Seu Nome, pra não mais ouví-lo e sim sê-lo, fazendo parte pra sempre das coisas que passam pela minha cabeça - Seu Rosto, Seu Corpo, Seu Cheiro, Seu Jeito, Você. Seu Nome me machuca. Seu Nome me irrita. Seu Nome me deixa triste e me faz querer me dar um tiro ou tomar remédio pra dormir até calar Seu Nome que ecoa por todos os buracos da minha cabeça e me ensurdece, Seu Nome e as coisas que caminham pelo meu quarto como se fossem vivas - Seu Rosto, Seu Corpo, Seu Cheiro, Seu Jeito, Você - gritam e não me deixam viver. Eu peço, eu me desespero pra que Você e Seu Nome e as coisas vivas que fazem parte de Você sumam e me deixem em paz mas isso nunca mais poderá acontecer e eu terei que conviver com Seu Nome dissolvendo minha memória até só restar Você e as coisas - Seu Rosto, Seu Corpo, Seu cheiro, Seu Jeito, Você. E falta pouco. Porque Você já sou eu.

23 de ago de 2010


Fique comigo, meu bem, mas não me ame. Me excite, me odeie, me recuse, me venda, me estrague, me esqueça, me machuque, me queira bem, mas não me ame.
Se aguente, meu bem, e não me ame. Se aproveite de mim, me faça de gato e sapato, me chame de docinho, fique a sós comigo, me traia com meu amigo, pegue emprestado meu cd favorito, me sirva, me agradeça, mas não me ame.
Desista meu bem, nunca me ame. Me deixe morrer sozinho, me traga café na cama, me apresente à sua família, me ligue todas as noites, me xingue, me mastigue, me trague, me leia, me roube, mas não me ame.

O amor me destrói.

17 de ago de 2010

Sapatos vermelhos

A morte veio depois. Primeiro veio aquele som do salto fino e vermelho pisando o chão de madeira. Toc, toc, toc. A última coisa que eu me lembro ouvir antes de morrer, não o som da risada insuportavelmente alta dela, nem o estilhaçar do meu copo de uísque – mil pedaços enfeitando o chão - muito menos o estampido surdo do revólver que calou todos os outros sons. “Calma” – eu disse, enquanto ela me olhava com aqueles olhos apagados de bicho - “Calma que você não sabe o que está fazendo, larga isso, baby.” Ela sequer piscou. Continuou andando, toc, toc, toc.
E bem em frente a mim, eu pude olhar direito o apagado dos olhos dela. E tive medo, muito medo do frio que morava ali e me queimava. Ela queimava. E olhava pra mim, apontando aquela raiva, e olhava pra mim, e gargalhava tão alto e eu já não podia ouvir mais nada.
Morri não muito depois, rápido, com uma bala na cabeça. A desgraçada estourou meus miolos porque não podia correr o risco de errar. Devia ter apenas uma bala, ou o suficiente de coragem para um tiro só. Foi embora correndo, deixando ecoar no apartamento vazio o som daqueles malditos sapatos vermelhos que eu havia dado de aniversário dois dias antes. Toc, toc, toc. Quebrando o silêncio que velava a minha morte.

24 de mai de 2010

Vermelha

O relógio da sala marca as horas e mais três voltas do ponteiro maior e será hora de ir. Mas eu ainda não estou pronta. Na verdade, eu sei que nunca estarei pronta.
Meus dias, mesmo com ele, com a presença dele e com tudo que vivo com ele, são vazios como se quase não existissem. Eu tenho tudo pra ser feliz e até seria, se esse tudo que é o suficiente pra tanta gente não fosse o carrasco que eu tenho que suportar diariamente. Eu só estou cansada. Eu só não aguento mais.
É que há tanta coisa dentro de mim que não me cabe e eu corto os meus pulsos pra me salvar de explodir. E é sangrando as poucos, e é vendo a vida escapar de mim, vermelha, que eu encontro o sentido que eu procurei a vida inteira; morrendo eu descubro que nunca soube a viver.
Morro no exato momento em que deveria entrar na igreja e me casar com o homem da minha vida.

20 de mai de 2010

Herói

Eu não saberia dizer como tudo começou. Talvez, muito parcamente, dizer onde e quando tudo começou, naquele dia cinza - seria meados de julho? - na beira do cais. Fumava meu terceiro cigarro em menos de uma hora, minhas mãos tremiam de ansiedade e eu pouco me lembro do que fazia alí. Sei que esperava. Foi quando ele passou por mim, camisa de tricoline gasta, andar apressado, sem graça, sem jeito. Olhava pra dentro. Parou na minha frente e sorriu. Sorri de volta, cigarro nos dedos. "Ei moça" - perguntou sem me fitar - "quer dar uma volta?". Não tive escolha: "Vamos embora daqui".
A partir daí iniciou-se algo que eu não chamaria de caso de amor. Primeiro que um caso de amor não começaria num dia feio como aquele, e não envolveria uma pessoa emocionalmente desequilibrada como eu, muito menos alguém perdido como ele. Ou talvez, em filmes. Mas minha vida não era nada parecida com um filme, com um livro, com uma música. Minha vida estava mais pra uma manchete de jornal barato. Insossa e previsível.
Nos víamos assim, duas ou três vezes na semana, no meu apartamento pequeno que dividia com uma gata amarela e arredia. Às vezes menos, porque ele era desses rapazes escorregadios que somem quinze dias e aparecem como se nunca tivessem cruzado a porta. E se eu reclamasse, ele balançava a cabeça e dizia que era assim, sem rumo nem lei, bicho selvagem que não gostava de coleira, cavalo que não se deixava domar. Que fosse. Eu não me importava. Na verdade eu nunca me importava com absolutamente nada, totalmente vazia que sou. Até o dia - era um domingo, bem me lembro - que ele bateu na minha porta com os lábios partidos e a camisa de algodão azul que eu tinha dado de presente suja de sangue. E não disse uma palavra enquanto eu limpava a ferida aberta e perguntava ligeiramente distraída o que tinha acontecido. Depois, levantou-se, olhou vagamente pra mim e disse que precisava ir embora, que queriam acabar com ele. Pela primeira vez fiquei com medo de perder algo. "Vamos chamar a polícia", corri pro telefone. Ele me segurou pelos ombros, me olhou fundo nos olhos como nunca tinha feito antes e disse sem piscar "Eu sou o herói dessa história, moça, não preciso ser salvo". Me beijou a testa e saiu. Sabia que nunca mais o veria de novo, mas mesmo assim não me mexi um centímetro pra tentar impedir que ele fosse embora. Comecei a amá-lo naquele instante, agora sei, no momento exato em que ele saiu da minha vida e perdeu-se completamente no mundo como se nunca tivesse existido.

7 de mai de 2010

Linger*

Me coma, eu tinha dito. Me coma, me transforme na puta que você acha que eu sou, mas por favor cala essa maldita boca. Você falando manso assim me lembra ele, eu pensei. É, lembrava.
Perto da janela eu podia contar uns vinte cigarros derramados num cinzeiro velho, cinzas espalhadas pelo parapeito da janela, onde eu ficava tonta tentando olhar pra baixo, mas não por ser alto demais, não era, culpa do álcool. O apartamento dele era pequeno e porco, as paredes amarelas desbotadas com manchas de mofo, os quase-nenhum móveis, o cheiro azedo de mijo que vinha do banheiro estava ficando insuportável. Coragem garota, acabe logo com isso.
Eu tentava fingir pra mim, mas estava mais do que claro o que eu estava fazendo ali. Não digo o óbvio, todos os seres vivos e inanimados presentes naquele cubículo sabiam que eu estava ali por uma trepada. Eu digo o implícito, o porque de eu procurar nos braços de um total desconhecido o que eu tinha a minha disposição em casa, e ainda mais, o que eu adorava ter a disposição em casa. Mas eu precisava fazer isso e provar pra mim que eu não prestava e que ele ficaria bem melhor sem mim. Talvez assim, pensei. É, talvez assim.
Me coma, eu gritei, The Cranberries tocando na rádio, aquele homem me olhando com um olhar descarado, gotas de suor brilhando sobre os lábios dele, era tarde demais pra recuar. E enquanto ele se aproximava nu, eu quase completava: vem, faça com que eu tenha motivos reais pra ter nojo de mim.
“Você sabe que eu sou uma idiota por você, você me tem em suas mãos”, a moça cantava em inglês, enquanto aquele estranho me fodia como um bicho. E eu estava em todos os outros lugares, gosto de vinho e porra na boca, a letra da música me levando pra longe dali, pra bem longe, ele no pensamento, a imagem dos olhos dele grudada na minha retina, eu quis chorar. Eu sou uma puta, concluí, e putas não choram. Uma puta da pior espécie, uma puta que dá sem querer e sem cobrar, apenas porque tem medo do amor. Uma puta, uma puta, repetia tentando afugentar as lágrimas. Uma puta. Mas putas também choram com Cranberries.



*Texto postado no Blog de Matheus dia 01 de julho do ano passado, o presente que ele me deu de poder ser o centésimo post e que por algum motivo nunca tinha sido postado na íntegra aqui. Resolvi postar agora porque faz décadas que ando tão fértil quanto uma sexagenária. Beijos a todos, e obrigada pelos comentários! Vivo querendo agradecer aqui, mas sou egocêntrica demais pra dedicar um post só pra isso :D. Muito obrigada pelas visitas, por me lembrar que isso aqui vale mesmo a pena. Outros beijos!
P.s.: E sou eu na foto mesmo, magra e feia como a fome. Haha!
P.p.s.: E só uma coisa muito curiosa que eu notei, sabiam que a maioria das pessoas que passam por aqui são psicianas? Isso é assustador! Parem de parir em fevereiro-março, o mundo já tá farto desse povo romântico e sonhador e talentoso e lindo! Hahaha!

24 de mar de 2010

Incompleta



Ás vezes você se sente assim, completamente preenchida e mais, talvez transbordando, e sente como se tudo fosse mais perfeito e mais surreal nessa realidade. E você fica lá feito pão mergulhado em leite, inchada, cada poro cheio e entupido de puro amor viscoso. Mas de repente - mas talvez não seja assim tão de repente - de repente você sente o amor escorrendo pelas extremidades; sente o amor pingando dos dedos e escorrendo dos olhos; sente o amor correndo pelas veias e explodindo nas cicatrizes dos pulsos: f u g i n d o d e v o c ê. E aí você vê que não tem mais o quê fazer, que se antes você tinha tudo e tudo tinha você, se antes a presença involuntária disso era o motivo do sorriso estampado na sua cara, hoje é o veneno que o seu corpo tenta expelir.
E mesmo que você não queira, mesmo que você não ache certo ferir alguém assim, mesmo que você não ache justo ser uma filha-da-puta a descartar mais um rapaz como todos os outros que você jurou amar, você não tem o que fazer.
Você simplesmente deixa ele ir embora de você como veio: sem fazer barulho.

16 de fev de 2010

Samba-solidão


Moço,
Não faz assim, não faz assim
Meu coração de pandeiro
Não faz meu peito vibrar
E tremer
E dançar
Se você já vai embora
Se você vai me deixar


Eu que te quero tanto, moço
Tanto que nem sei contar
E sempre que toca no rádio o seu samba enredo
A cidade toda parece comigo cantar


O carnaval já passou
E parece que você também
Só deixou essa saudade
Essa vontade
- Que maldade!


De te abraçar
Te dizer
Que se eu sambo é por você
Que o meu samba é só saudade
É só saudade
De você




*Um samba feito em outro - e pra outros - carnavais!

8 de fev de 2010

Vão

Dentro de mim dorme anestesiada uma dor que eu não consigo suportar.
Que me corrói, que me punge, que me fere, que me cala.
E aos poucos ela volta e me toma, aos poucos ela torna e me ganha, mansa:

requiem dos sonhos que eu não tive nem tempo de viver.

Mas ela é minha. E eu não sei viver sem a minha dor.


4 de fev de 2010

Sobre o abandono


Eu gosto assim, que me fale devagarinho essas coisas suas tão nossas, essas suas-nossas indecências, essas suas-nossas inocências, gosto que me fale assim, mesmo quando reclama que eu não quero ouvir, como se eu não quisesse ouvir, ora, claro que eu quero ouvir as coisas assim do meu menino, do meu amigo, homem, irmão, pai, rei, amante mas não gosto quando me fala assim, que vai partir, que tem que ir, mesmo que precise, mesmo que não tenha jeito de ficar mais aqui, me dói ouvir, com sua voz tão doce alguma coisa assim, não diz pra mim, ora, que vá! mas não me avise, apenas vá, que a dor talvez não doa mais do que já tá doendo em mim.
Eu te prometi amor demais desde que te vi, você sabe, naquela estação de metrô tão cheia de gente e tanta gente que nem sei, quando eu te vi alí e sabia só de olhar pra você que te amaria como nunca consegui amar ninguém porque você sabe o quanto eu sofri por não gostar de alguém como eu gosto de você agora. E alí parado esperando o metrô você me olhou e disse olá e eu tão boba, como eu sou boba, eu só sorri. E você me disse meses depois que se apaixonou ali, lembra?, eu tão boba e você se apaixonou por meu sorriso bobo de quem encontrou o amor da vida e não sabe o que falar. E depois de tanto amar, pois tanto, tanto amor eu gastei com você! olhando a cama desforrada e suas pernas displicentes de qualquer maneira eu só vejo sobras de amor bem feito, depois de tanto tempo amando você diz assim, como se não pudesse ser diferente, como se fosse possível alguém amar tanto e ser obrigada a ouvir que você apenas tem que ir, que não tem jeito.
Então não diz pra mim. Vai embora, pega o seu casaco, a sua roupa de dormir, a sua escova de dente, a sua maldita escova de dente apoiada na minha, pega a suas coisas todas, e ó, não esquece do dentista segunda três e meia, tem café pronto, bebe e vá embora, mas não me diz que vai, quando for, não me diz que eu não quero estar aqui vendo você esvaziar a minha vida.
E talvez eu esteja em algum bar vadio enxendo a cara pra não lembrar que você se vai, talvez eu esteja nos braços de algum rapaz aleatório pra querer que você se vá, talvez eu esteja em algum canto do mundo ensaiando a dor de não te ter mais diariamente enquanto você esvazia o armário e vai embora sem dizer adeus. Como se fosse justo. Como se fizesse sentido. Como se tivesse perdão.
Mas se quiser voltar , se você se cansar dela e quiser voltar, apenas diz pra mim.

28 de jan de 2010

Ismália


Você vem primeiro pela manhã e me mata como se o tudo não te bastasse e o nada que sobra para mim é suficiente para cobrir durante um par de horas a sua ausência que anda cada vez mais escassa. Depois aparece pela tarde e me tira a respiração como uma onda em ressaca, me levando cada vez mais pra longe do que resta de mim. E a noite, como se não bastasse - e não basta, você sussurra, nunca basta - você chega manso pra me acalmar, mas seus dedos leves são como brasas sobre a pele do meu peito e me queima, me abre uma chaga imensa e tão profunda que posso ver pedaços da minha alma querendo sair de lá.
Você vem nos dias frescos e nos dias tórridos, e tanto faz pra você se chove, ou se eu já não enxergo mais a neve, ou se eu já não posso mais ouvir os colibris, você me agarra forte e eu já não lembro mais do que vivi, do que senti. No seu abraço vivo eu vivo os dias as noites os anos num mundo nosso, onde não mais importa nada e a dor não é tão dolorida assim.
E a minha não- existência torna a ter lugar no mundo, junto a você minha insistência torna a ter algum sentido, o sentido buscado em vão a vida inteira insone e morta e pálida como eu continuaria sendo se não fosse você.
E se você, um certo e esperado dia, me rasga a pele e cola nela um par de asas azuis, e se você, me ala e mostra o universo a esperar por mim, e se o meu juízo estiver completamente corroído por você, e se eu me jogar pela janela desse quarto e cair aos pés de meia dúzia de loucos como eu, e ah!, se ao invés de despencar eu voar como sempre quis, e sim, assim eu viverei mesmo que seja no sentido oposto da razão.
Ao invés de Loucura, deviam te chamar Vida.





"As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar..."

(Ismália - Alphonsus de Guimaraens)