31 de out de 2011

Resquícios do meu charme



Ainda há em mim agora resquícios do meu charme. Apesar da decadência insone que bate na minha porta todas as noites com uma garrafa de uísque nacional na mão direita e dois vinis de Tim Maia na esquerda, ainda há - e há quem diga que sempre haverá - o pouco que me resta do meu deselegante charme. O charme que ainda mora nas minhas cicatrizes gêmeas no quadril que não sei como surgiram, o charme nas minhas costelas aparentes, cada vez mais aparentes - culpem as noites de mal-dormir, culpem-nas! - o charme das minhas olheiras arrocheadas e da minha apatia de viver cada dia esperando que o próximo chegue trazendo um pouco mais de agonia. Um pouco do meu charme explodindo em baforadas de fumaça, um pouco do meu charme vertido em litros de vômito cor-de-vinho, um pouco do meu charme grudado nas têmporas suadas cheirando a puro álcool. Ainda há, meu bem, e sempre haverá resquícios do meu charme no lixo em que você me transformou.

29 de out de 2011

Arrastada


Assim que acordo, todos os dias, com os primeiro raios da manhã, o amargo da sua falta pisca pra mim, primeiro desfocado, depois desesperadamente nítido até dominar minha visão por inteira, morno como o nascer do sol. E não haverá potes de dias e de madrugadas, não haverá montanhas de horas de relógio, nem rios de semanas desmaiadas que apaguem as minhas memórias, entalhadas em mim como as nossas iniciais na árvore da nossa infância. E agora, com os pés afundados na lama preta do manguezal, eu só consigo ver pedras no meu destino. Talvez pela quantidade de pedras que cercam a margem do rio, pedras escorregadias de lodo e polidas pelo vai e vem das águas, pedras que poderiam contar tantas histórias de tanta gente que passou por aqui, como eu, como você. Talvez porque agora são as pedras desse mesmo rio em que brinquei com você a minha vida inteira que me enchem os bolsos e me fazem pesar mais de uma tonelada. E agora, cada passo que eu dou é como se tivesse caminhando em direção ao começo. Ao fim de todas essas pedras, ao fim de toda essa lembrança que me veste às vistas a cada segundo, estou indo em direção a uma vida inteira sem futuro. E enquanto caminho e a água vai me cobrindo aos poucos, molhando a minha pele e roupa e sentido, vai lavando os meus sonhos, vai levando junto com ela o meu desespero. Tento falar pela última vez o seu nome antes de afundar completamente, mas me falta ar. Não tem volta. Não tenho escolha. Sua ausência me destruiu por inteira e só a morte pode me salvar dos meus pedaços. E que o rio se encarregue de arrastar o que restou de mim como o tempo não terá tempo de fazer.

26 de out de 2011

Déjà vu

Eu ontem sonhei contigo
Um lindo sonho contigo
Estávamos os dois de braços dados na praia
Você sorria com dentes de conchas do mar
E me beijava com gosto de sal
Eu podia bem ficar alí pra sempre
Eu podia bem construir uma casa de areia pra nós dois
Onde as ondas bateriam nos nossos pés todas as manhãs
E os peixes brincariam com nossos cabelos
E a luz do sol nos acordaria tão cedo mas não levantaríamos da cama
Porque somos preguiçosos e gostamos de dormi até bem tarde
Eu faria perucas de algas porque não teria alergia
E nós comeríamos peixe assado todos os dias
E carangueijo porque você não teria alergia
Mas o sonho se desfez como um castelo de areia pisado
E eu acordei sozinha e seca
Sem ter você nem perto nem longe
Um vazio do lado direito da cama
Um vazio dentro de mim
Da janela nenhum raio de sol
Nem zoada de jet ski
Só barulho de chuva
Chovia lá fora
E eu tenho certeza que chovia por nós dois

24 de out de 2011

Leve duas moedas para o barqueiro

Hoje eu acordei querendo morrer. Sinto que para que isso sáia de mim, esse veneno que me consome e me corrói aos bocados só tirando todo o sangue do meu corpo, litros e litros de sangue drenado de cada poro. Só assim, e talvez, nem assim. Hoje quando acordei querendo morrer abri os olhos e tinha dois raios de sol no teto na minha direção e só o que eu queria era voltar ao breu total de dentro de mim. Queria estar fora de mim. Desexistir. Ser como uma alma perdida no submundo que por não ter sido sepultada corretamente não tem o direito de fazer a travessia. Ser como ela condenada a vagar por toda a eternidade entre o mundo dos vivos e o mundos dos mortos. Hoje eu acordei querendo morrer e levar comigo toda a dor que estou sentido, tão tangível que a vejo sentada agora na minha frente sorrindo para mim. Ainda não sei se a alimento, se a consumo, se choro abraçada com ela. A única certeza que tenho, é que essa dor, tão material, tão debochada, me acompanhará para sempre. Até que eu tenha coragem. Até que me coloquem nos olhos duas moedas de ouro para Caronte. Mas eu nunca farei a travessia.

2 de out de 2011

Caixa

Hoje enquanto tentava organizar as minhas gavetas achei uma caixa onde costumava guardar coisas que considerava importantes pra mim. Um caixa pequena, já rasgada, mas entupida de lembranças que algum dia considerei especiais por algum motivo. Achei dentro dela, entre outras coisas: uma foto minha com meu sobrinho recém-nascido, o resultado do vestibular da UFBA de 2009.1 com meu nome circulado, a primeira carta de amor que recebi, um skate de dedo que ganhei de um garoto que eu gostava na 4º série, um chaveiro de Porto de Galinhas e uma foto minha sem os dois dentes da frente. Encontrei também um poema-cordel, que fiz dia 29/11/2008, numa noite em que deveria estar estudando pro vestibular. Fiquei com a barriga quente enquanto lia, então tive vontade de compartilhar aqui no blog. Da época que eu era sonhadora e apaixonada (era?):

Com um amor de brincadeira
Ela sonhava todo dia
E de um todo tentava
Até promessa e simpatia
-" Por favor "- disse uma noite
Pra uma estrela (de) cadente
"- Será que dá pra dessa vez
Ele ser bem diferente?
Alto de topar no teto
Meigo como um passarinho
Meio planta, meio gente
E alegre, um bocadinho"
Passaram dias, meses, sonhos
E a menina a pedir
Deixava de fazer tudo
De comer e de dormir
E de tanto se afundar
Em quereres sem ter fim
Não notou que um belo moço
A olhava do jardim
"-Ah, se ela olhasse pra mim!"