3 de ago. de 2011

Filme


CENA 10

EXTERIOR- DIA - PRAIA

MOÇA está parada em frente ao mar com os olhos cerrados. Uma mecha de cabelo cái no rosto. MOÇA retira sem abrir os olhos.

MOÇA (V.O)

- Sinto como se meu corpo rebentasse tal uma onda na beira de um cais.

MOÇA abre os olhos.

MOVIMENTO DE CÂMERA MOSTRA UMA ONDA ATINGINDO OS PÉS DESCALÇOS DA MOÇA.

MOÇA (V.O)

- Não sinto mais a rigidez dos meus pés, não lembro mais sequer o meu nome.

MOÇA caminha lentamente em direção ao mar.

MOÇA (V.O)

- Só ouço o som do meu coração batendo desesperadamente no meu tórax querendo escapar.

MOÇA continua caminhando até que a água a cubra totalmente.

MOÇA (V.O.)

- Afundo porque agora ele é pedra.

CÂMERA SOBE LENTAMENTE ATÉ ENQUADRAR SOMENTE O CÉU NUBLADO.

SOBEM OS CRÉDITOS FINAIS.

3 de jul. de 2011

Há um pássaro azul no meu coração


Joaquim me disse uma vez que o amor é um desossador de aves. Me abraçava forte enquanto dizia isso baixinho, num abraço que era quase uma gravata e me sufocava um pouco, e dizia cada vez mais baixo "olha, amor, o amor é uma coisa e tanta, é um desossador de aves, vai nos tirar a estrutura e depois nos consumir aos pouquitos" e ria, e ríamos e éramos muitos jovens.
Joaquim me dizia coisas que eu não entendia, coisas sobre o fim e o começo, coisas sobre o não ser, sobre os quereres, as nuances do mar, sobre a espiral do mundo. Joaquim me fazia coisas que eu não entendia, Joaquim me apresentava poesias, e eu o amava cada dia mais um tanto, tanto amor que poderíamos caber numa daquelas fantasias que ele gostava de inventar, jovens que éramos.
De tanto falar e ser, Joaquim fez nascer em mim um pássaro. Um pássaro muito azul que se escondia quando ele não estava por perto e que cantava quando ele aparecia. Era um lindo pássaro azul secreto. Era um enorme pássaro azul secreto, que mais que morar em mim, me preenchia. Mas Joaquim tinha medo do desossador. E por temer, Joaquim quis livrar-se do pássaro azul que havia no meu coração. Queria ele desaparecido, escasso, fugido, antes que o amor o consumisse. E por temer, ele, tão jovem que era, tão sabido que era, não entendia daonde nascia o desossador. Azeviche foi ficando, azeviche ficou.
Há um pássaro azul no meu coração e eu tenho que tirá-lo de lá antes que Joaquim o mate.

26 de jun. de 2011

Canção de exílio

Estou voltando, e permita e queira Deus que tudo esteja exatamente nos mesmo lugares em que deixei, a máquina de escrever com o erre emperrado, a samambaia perfilhada da sala de estar, minha velha mãe cheirando a alho poró. Já faz tanto tempo que fui embora que assalta-me a mémoria nítida de cada ponto descascado do papel de parede, de cada canto escondido da casa, como se ela e eu fóssemos uma coisa só feita de sangue e concreto. Longe dela minguo, lunático que sou. Reduzo-me a pó, poeira, barro, areia descartada no capacho da cozinha. Pela lembrança dela, nasço, contravenção que sou. Broto nas hortaliças, nas ervas daninhas, no mato, na Mangueira com um coração flechado tatuado no tronco. Para ela volto, nostalgia que sou, e permita e queira deus que tudo esteja exatamente nos mesmo lugares em que deixei.

Por que assim vivo, lua, vida, saudade e em loopping por toda a eternidade, longe dela, perto dela, como a marca de uma cicatriz.

22 de jun. de 2011

No soul power


A loucura me disse uma vez que eu deveria jogar todas as lembranças fora, junto com os cacos de vidro e os potes de mel. Não lembro das palavras exatas, nem do seu timbre de voz, tampouco lembro a direção que o vento soprava naquele momento. Mas quando coloquei a mão no peito senti a marca que aquele conselho deixara. Um buraco fundo e tão fundo que pude sentir você dentro de mim pedindo socorro.
Demorei pra acreditar que era você e não eu que chorava.