4 de ago. de 2011

Gaia

Carreguei o amor dentro de mim durante muito tempo. Escondi dentro de mim o fardo da certeza durante a vida inteira. Pintei todas as paredes de amarelo, coloquei um jarro de flores na janela, construí num galho um ninho feito todo de açúcar. E o amor invadia o meu corpo lentamente como uma trepadeira. Transformou cada gota de lágrima despencada em mel e cada pesadelo sonhado em algodão doce e cada ruga marcada em origami. O amor me invadia pouco a pouco e me transformava em brasa doce, que pulsava ritmada com as folhas da amendoeira que caiam no quintal no arrastado dos dias. Esperava. E num dia, enquanto preparava torta de maçã com canela, choveu. Choveu muito. Choveu como nunca chovera antes, como nunca antes fora permitido chover. A chuva derreteu o ninho, matou as flores, infiltrou as paredes. Quando a chuva começou a chover de dentro pra fora, emudeci. Nublei.
Meu céu azul agora é nevoeiro. Meu filho agora é um rio de sangue.

Minúcias

Eu comumente me parto em duas
Partícula que deseja ser pó solto
Molécula que deseja ser raiz
Parte de mim
Quer ser feito folha seca levantada do chão
Barco deslizando manso nas espumas do mar
Sempre longe
A minha outra metade
[a parte sensata de mim
Fica me lembrando de que nem tudo é flor
Que nem mesmo as nuvens são eternas
E que mais vale um pássaro na mão do que dois voando
Mesmo se fosse eu um desses dois

Confesso que dessa metade eu tenho pena.



3 de ago. de 2011

Filme


CENA 10

EXTERIOR- DIA - PRAIA

MOÇA está parada em frente ao mar com os olhos cerrados. Uma mecha de cabelo cái no rosto. MOÇA retira sem abrir os olhos.

MOÇA (V.O)

- Sinto como se meu corpo rebentasse tal uma onda na beira de um cais.

MOÇA abre os olhos.

MOVIMENTO DE CÂMERA MOSTRA UMA ONDA ATINGINDO OS PÉS DESCALÇOS DA MOÇA.

MOÇA (V.O)

- Não sinto mais a rigidez dos meus pés, não lembro mais sequer o meu nome.

MOÇA caminha lentamente em direção ao mar.

MOÇA (V.O)

- Só ouço o som do meu coração batendo desesperadamente no meu tórax querendo escapar.

MOÇA continua caminhando até que a água a cubra totalmente.

MOÇA (V.O.)

- Afundo porque agora ele é pedra.

CÂMERA SOBE LENTAMENTE ATÉ ENQUADRAR SOMENTE O CÉU NUBLADO.

SOBEM OS CRÉDITOS FINAIS.

3 de jul. de 2011

Há um pássaro azul no meu coração


Joaquim me disse uma vez que o amor é um desossador de aves. Me abraçava forte enquanto dizia isso baixinho, num abraço que era quase uma gravata e me sufocava um pouco, e dizia cada vez mais baixo "olha, amor, o amor é uma coisa e tanta, é um desossador de aves, vai nos tirar a estrutura e depois nos consumir aos pouquitos" e ria, e ríamos e éramos muitos jovens.
Joaquim me dizia coisas que eu não entendia, coisas sobre o fim e o começo, coisas sobre o não ser, sobre os quereres, as nuances do mar, sobre a espiral do mundo. Joaquim me fazia coisas que eu não entendia, Joaquim me apresentava poesias, e eu o amava cada dia mais um tanto, tanto amor que poderíamos caber numa daquelas fantasias que ele gostava de inventar, jovens que éramos.
De tanto falar e ser, Joaquim fez nascer em mim um pássaro. Um pássaro muito azul que se escondia quando ele não estava por perto e que cantava quando ele aparecia. Era um lindo pássaro azul secreto. Era um enorme pássaro azul secreto, que mais que morar em mim, me preenchia. Mas Joaquim tinha medo do desossador. E por temer, Joaquim quis livrar-se do pássaro azul que havia no meu coração. Queria ele desaparecido, escasso, fugido, antes que o amor o consumisse. E por temer, ele, tão jovem que era, tão sabido que era, não entendia daonde nascia o desossador. Azeviche foi ficando, azeviche ficou.
Há um pássaro azul no meu coração e eu tenho que tirá-lo de lá antes que Joaquim o mate.