16 de fev. de 2010

Samba-solidão


Moço,
Não faz assim, não faz assim
Meu coração de pandeiro
Não faz meu peito vibrar
E tremer
E dançar
Se você já vai embora
Se você vai me deixar


Eu que te quero tanto, moço
Tanto que nem sei contar
E sempre que toca no rádio o seu samba enredo
A cidade toda parece comigo cantar


O carnaval já passou
E parece que você também
Só deixou essa saudade
Essa vontade
- Que maldade!


De te abraçar
Te dizer
Que se eu sambo é por você
Que o meu samba é só saudade
É só saudade
De você




*Um samba feito em outro - e pra outros - carnavais!

8 de fev. de 2010

Vão

Dentro de mim dorme anestesiada uma dor que eu não consigo suportar.
Que me corrói, que me punge, que me fere, que me cala.
E aos poucos ela volta e me toma, aos poucos ela torna e me ganha, mansa:

requiem dos sonhos que eu não tive nem tempo de viver.

Mas ela é minha. E eu não sei viver sem a minha dor.


4 de fev. de 2010

Sobre o abandono


Eu gosto assim, que me fale devagarinho essas coisas suas tão nossas, essas suas-nossas indecências, essas suas-nossas inocências, gosto que me fale assim, mesmo quando reclama que eu não quero ouvir, como se eu não quisesse ouvir, ora, claro que eu quero ouvir as coisas assim do meu menino, do meu amigo, homem, irmão, pai, rei, amante mas não gosto quando me fala assim, que vai partir, que tem que ir, mesmo que precise, mesmo que não tenha jeito de ficar mais aqui, me dói ouvir, com sua voz tão doce alguma coisa assim, não diz pra mim, ora, que vá! mas não me avise, apenas vá, que a dor talvez não doa mais do que já tá doendo em mim.
Eu te prometi amor demais desde que te vi, você sabe, naquela estação de metrô tão cheia de gente e tanta gente que nem sei, quando eu te vi alí e sabia só de olhar pra você que te amaria como nunca consegui amar ninguém porque você sabe o quanto eu sofri por não gostar de alguém como eu gosto de você agora. E alí parado esperando o metrô você me olhou e disse olá e eu tão boba, como eu sou boba, eu só sorri. E você me disse meses depois que se apaixonou ali, lembra?, eu tão boba e você se apaixonou por meu sorriso bobo de quem encontrou o amor da vida e não sabe o que falar. E depois de tanto amar, pois tanto, tanto amor eu gastei com você! olhando a cama desforrada e suas pernas displicentes de qualquer maneira eu só vejo sobras de amor bem feito, depois de tanto tempo amando você diz assim, como se não pudesse ser diferente, como se fosse possível alguém amar tanto e ser obrigada a ouvir que você apenas tem que ir, que não tem jeito.
Então não diz pra mim. Vai embora, pega o seu casaco, a sua roupa de dormir, a sua escova de dente, a sua maldita escova de dente apoiada na minha, pega a suas coisas todas, e ó, não esquece do dentista segunda três e meia, tem café pronto, bebe e vá embora, mas não me diz que vai, quando for, não me diz que eu não quero estar aqui vendo você esvaziar a minha vida.
E talvez eu esteja em algum bar vadio enxendo a cara pra não lembrar que você se vai, talvez eu esteja nos braços de algum rapaz aleatório pra querer que você se vá, talvez eu esteja em algum canto do mundo ensaiando a dor de não te ter mais diariamente enquanto você esvazia o armário e vai embora sem dizer adeus. Como se fosse justo. Como se fizesse sentido. Como se tivesse perdão.
Mas se quiser voltar , se você se cansar dela e quiser voltar, apenas diz pra mim.

28 de jan. de 2010

Ismália


Você vem primeiro pela manhã e me mata como se o tudo não te bastasse e o nada que sobra para mim é suficiente para cobrir durante um par de horas a sua ausência que anda cada vez mais escassa. Depois aparece pela tarde e me tira a respiração como uma onda em ressaca, me levando cada vez mais pra longe do que resta de mim. E a noite, como se não bastasse - e não basta, você sussurra, nunca basta - você chega manso pra me acalmar, mas seus dedos leves são como brasas sobre a pele do meu peito e me queima, me abre uma chaga imensa e tão profunda que posso ver pedaços da minha alma querendo sair de lá.
Você vem nos dias frescos e nos dias tórridos, e tanto faz pra você se chove, ou se eu já não enxergo mais a neve, ou se eu já não posso mais ouvir os colibris, você me agarra forte e eu já não lembro mais do que vivi, do que senti. No seu abraço vivo eu vivo os dias as noites os anos num mundo nosso, onde não mais importa nada e a dor não é tão dolorida assim.
E a minha não- existência torna a ter lugar no mundo, junto a você minha insistência torna a ter algum sentido, o sentido buscado em vão a vida inteira insone e morta e pálida como eu continuaria sendo se não fosse você.
E se você, um certo e esperado dia, me rasga a pele e cola nela um par de asas azuis, e se você, me ala e mostra o universo a esperar por mim, e se o meu juízo estiver completamente corroído por você, e se eu me jogar pela janela desse quarto e cair aos pés de meia dúzia de loucos como eu, e ah!, se ao invés de despencar eu voar como sempre quis, e sim, assim eu viverei mesmo que seja no sentido oposto da razão.
Ao invés de Loucura, deviam te chamar Vida.





"As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar..."

(Ismália - Alphonsus de Guimaraens)