3 de jul. de 2011

Há um pássaro azul no meu coração


Joaquim me disse uma vez que o amor é um desossador de aves. Me abraçava forte enquanto dizia isso baixinho, num abraço que era quase uma gravata e me sufocava um pouco, e dizia cada vez mais baixo "olha, amor, o amor é uma coisa e tanta, é um desossador de aves, vai nos tirar a estrutura e depois nos consumir aos pouquitos" e ria, e ríamos e éramos muitos jovens.
Joaquim me dizia coisas que eu não entendia, coisas sobre o fim e o começo, coisas sobre o não ser, sobre os quereres, as nuances do mar, sobre a espiral do mundo. Joaquim me fazia coisas que eu não entendia, Joaquim me apresentava poesias, e eu o amava cada dia mais um tanto, tanto amor que poderíamos caber numa daquelas fantasias que ele gostava de inventar, jovens que éramos.
De tanto falar e ser, Joaquim fez nascer em mim um pássaro. Um pássaro muito azul que se escondia quando ele não estava por perto e que cantava quando ele aparecia. Era um lindo pássaro azul secreto. Era um enorme pássaro azul secreto, que mais que morar em mim, me preenchia. Mas Joaquim tinha medo do desossador. E por temer, Joaquim quis livrar-se do pássaro azul que havia no meu coração. Queria ele desaparecido, escasso, fugido, antes que o amor o consumisse. E por temer, ele, tão jovem que era, tão sabido que era, não entendia daonde nascia o desossador. Azeviche foi ficando, azeviche ficou.
Há um pássaro azul no meu coração e eu tenho que tirá-lo de lá antes que Joaquim o mate.

26 de jun. de 2011

Canção de exílio

Estou voltando, e permita e queira Deus que tudo esteja exatamente nos mesmo lugares em que deixei, a máquina de escrever com o erre emperrado, a samambaia perfilhada da sala de estar, minha velha mãe cheirando a alho poró. Já faz tanto tempo que fui embora que assalta-me a mémoria nítida de cada ponto descascado do papel de parede, de cada canto escondido da casa, como se ela e eu fóssemos uma coisa só feita de sangue e concreto. Longe dela minguo, lunático que sou. Reduzo-me a pó, poeira, barro, areia descartada no capacho da cozinha. Pela lembrança dela, nasço, contravenção que sou. Broto nas hortaliças, nas ervas daninhas, no mato, na Mangueira com um coração flechado tatuado no tronco. Para ela volto, nostalgia que sou, e permita e queira deus que tudo esteja exatamente nos mesmo lugares em que deixei.

Por que assim vivo, lua, vida, saudade e em loopping por toda a eternidade, longe dela, perto dela, como a marca de uma cicatriz.

22 de jun. de 2011

No soul power


A loucura me disse uma vez que eu deveria jogar todas as lembranças fora, junto com os cacos de vidro e os potes de mel. Não lembro das palavras exatas, nem do seu timbre de voz, tampouco lembro a direção que o vento soprava naquele momento. Mas quando coloquei a mão no peito senti a marca que aquele conselho deixara. Um buraco fundo e tão fundo que pude sentir você dentro de mim pedindo socorro.
Demorei pra acreditar que era você e não eu que chorava.

19 de mai. de 2011

No dia em que Carlos morreu

No dia em que Carlos morreu, lembro de ter amanhecido com as têmporas molhadas de suor. Não sei de que adiantará essa informação frente à gravidade dos fatos que se sucederam ao longo do dia, mas era impossível não notar o calor anormal que fizera naquela madrugada e permanecera durante o dia inteiro. Lembro de ter acordado, no dia em que Carlos morreu, mais cedo que o habitual, o que era deveras estranho, porque quase não havia luminosidade pra me acordar, apenas um filete de luz que escapava pelas cortinas desbotadas e iluminava a parte interna da minha coxa esquerda. Acabo de me lembrar vagamente que no dia em que Carlos morreu, levantei da cama com um sentimento estranho, que presumi ser resquício de um sonho infeliz. Talvez isso e não o calor, me impeliu a levantar da cama cedo, antes que o dia clareasse por completo. Talvez a sensação latente de que algo aconteceria naquele dia e que esse algo mudaria pra sempre o destino de alguém. Não acredito nessas coisas. Ou melhor, não acreditava, até o dia em que Carlos morreu, levando consigo toda a minha descrença.
Trabalhei como de costume, no dia em que Carlos morreu. Andei pelas ruas da cidade observando as lavadeiras gordas equilibrando imensas bacias de água na cabeça, vi meninos pretos de olhos pretos e sorrisos amarelos brincarem de bola de meia no meio da rua, comprimentei vendedores de pipoca com seus carrinhos de pipoca cor-de-rosa. Tudo parecia normal, no dia em que Carlos morreu. Exceto o calor. Fazia calor demais. Fazia calor como nunca antes.
Anunciaram no telejornal a morte de Carlos. Sujeito caucasiano, mais ou menos 30 anos, encontrado morto no cais com um tiro certeiro no meio da testa. Crime passional, sua amante é a principal suspeita. Eu - pensei. Desejei. Não era eu. Não poderia ser eu, pelo simples fato de que sequer saberia da existência de Carlos se não fosse a sua morte e o anúncio da sua morte no noticiário da televisão.
Minha vida faria muito mais sentido se fosse eu a assassina de Carlos. Se fosse eu que tivesse empunhado a arma que tirou a vida de Carlos. Se ao menos um dia - não tão ordinário por causa do calor - eu tivesse usado a minha vida pra algo mais útil que consumir meus minutos apenas com a mediocridade da minha existência.