20 de mai de 2010

Herói

Eu não saberia dizer como tudo começou. Talvez, muito parcamente, dizer onde e quando tudo começou, naquele dia cinza - seria meados de julho? - na beira do cais. Fumava meu terceiro cigarro em menos de uma hora, minhas mãos tremiam de ansiedade e eu pouco me lembro do que fazia alí. Sei que esperava. Foi quando ele passou por mim, camisa de tricoline gasta, andar apressado, sem graça, sem jeito. Olhava pra dentro. Parou na minha frente e sorriu. Sorri de volta, cigarro nos dedos. "Ei moça" - perguntou sem me fitar - "quer dar uma volta?". Não tive escolha: "Vamos embora daqui".
A partir daí iniciou-se algo que eu não chamaria de caso de amor. Primeiro que um caso de amor não começaria num dia feio como aquele, e não envolveria uma pessoa emocionalmente desequilibrada como eu, muito menos alguém perdido como ele. Ou talvez, em filmes. Mas minha vida não era nada parecida com um filme, com um livro, com uma música. Minha vida estava mais pra uma manchete de jornal barato. Insossa e previsível.
Nos víamos assim, duas ou três vezes na semana, no meu apartamento pequeno que dividia com uma gata amarela e arredia. Às vezes menos, porque ele era desses rapazes escorregadios que somem quinze dias e aparecem como se nunca tivessem cruzado a porta. E se eu reclamasse, ele balançava a cabeça e dizia que era assim, sem rumo nem lei, bicho selvagem que não gostava de coleira, cavalo que não se deixava domar. Que fosse. Eu não me importava. Na verdade eu nunca me importava com absolutamente nada, totalmente vazia que sou. Até o dia - era um domingo, bem me lembro - que ele bateu na minha porta com os lábios partidos e a camisa de algodão azul que eu tinha dado de presente suja de sangue. E não disse uma palavra enquanto eu limpava a ferida aberta e perguntava ligeiramente distraída o que tinha acontecido. Depois, levantou-se, olhou vagamente pra mim e disse que precisava ir embora, que queriam acabar com ele. Pela primeira vez fiquei com medo de perder algo. "Vamos chamar a polícia", corri pro telefone. Ele me segurou pelos ombros, me olhou fundo nos olhos como nunca tinha feito antes e disse sem piscar "Eu sou o herói dessa história, moça, não preciso ser salvo". Me beijou a testa e saiu. Sabia que nunca mais o veria de novo, mas mesmo assim não me mexi um centímetro pra tentar impedir que ele fosse embora. Comecei a amá-lo naquele instante, agora sei, no momento exato em que ele saiu da minha vida e perdeu-se completamente no mundo como se nunca tivesse existido.

5 comentários:

Alex Pitta disse...

Assassino do doce peito ninando a madrugada,
ternura sem a pele a traçar as nervuras do desejo;

o herói, um vilão egoísta, um mártir - um amor.

Eva Cidrack. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eva Cidrack. disse...

Vanny, leio seus textos há tempos e nunca comentei aqui! Nossa, como vce escreve bem, menina. Fico maravilhada sempre que leio seus escritos. Você consegue me encantar e me surpreender sempre! Parabéns, mesmo.

Florela disse...

Vanny,sigo seu blog a pouco tempo,mas ja estou encantada com seus textos maravilhosos e emocionantes.
parabéns,muito sucesso pra voce!

Lilah Costa disse...

Dos seus textos esse é o meu preferido! sem falar em Dimitre.