7 de mai de 2010

Linger*

Me coma, eu tinha dito. Me coma, me transforme na puta que você acha que eu sou, mas por favor cala essa maldita boca. Você falando manso assim me lembra ele, eu pensei. É, lembrava.
Perto da janela eu podia contar uns vinte cigarros derramados num cinzeiro velho, cinzas espalhadas pelo parapeito da janela, onde eu ficava tonta tentando olhar pra baixo, mas não por ser alto demais, não era, culpa do álcool. O apartamento dele era pequeno e porco, as paredes amarelas desbotadas com manchas de mofo, os quase-nenhum móveis, o cheiro azedo de mijo que vinha do banheiro estava ficando insuportável. Coragem garota, acabe logo com isso.
Eu tentava fingir pra mim, mas estava mais do que claro o que eu estava fazendo ali. Não digo o óbvio, todos os seres vivos e inanimados presentes naquele cubículo sabiam que eu estava ali por uma trepada. Eu digo o implícito, o porque de eu procurar nos braços de um total desconhecido o que eu tinha a minha disposição em casa, e ainda mais, o que eu adorava ter a disposição em casa. Mas eu precisava fazer isso e provar pra mim que eu não prestava e que ele ficaria bem melhor sem mim. Talvez assim, pensei. É, talvez assim.
Me coma, eu gritei, The Cranberries tocando na rádio, aquele homem me olhando com um olhar descarado, gotas de suor brilhando sobre os lábios dele, era tarde demais pra recuar. E enquanto ele se aproximava nu, eu quase completava: vem, faça com que eu tenha motivos reais pra ter nojo de mim.
“Você sabe que eu sou uma idiota por você, você me tem em suas mãos”, a moça cantava em inglês, enquanto aquele estranho me fodia como um bicho. E eu estava em todos os outros lugares, gosto de vinho e porra na boca, a letra da música me levando pra longe dali, pra bem longe, ele no pensamento, a imagem dos olhos dele grudada na minha retina, eu quis chorar. Eu sou uma puta, concluí, e putas não choram. Uma puta da pior espécie, uma puta que dá sem querer e sem cobrar, apenas porque tem medo do amor. Uma puta, uma puta, repetia tentando afugentar as lágrimas. Uma puta. Mas putas também choram com Cranberries.



*Texto postado no Blog de Matheus dia 01 de julho do ano passado, o presente que ele me deu de poder ser o centésimo post e que por algum motivo nunca tinha sido postado na íntegra aqui. Resolvi postar agora porque faz décadas que ando tão fértil quanto uma sexagenária. Beijos a todos, e obrigada pelos comentários! Vivo querendo agradecer aqui, mas sou egocêntrica demais pra dedicar um post só pra isso :D. Muito obrigada pelas visitas, por me lembrar que isso aqui vale mesmo a pena. Outros beijos!
P.s.: E sou eu na foto mesmo, magra e feia como a fome. Haha!
P.p.s.: E só uma coisa muito curiosa que eu notei, sabiam que a maioria das pessoas que passam por aqui são psicianas? Isso é assustador! Parem de parir em fevereiro-março, o mundo já tá farto desse povo romântico e sonhador e talentoso e lindo! Hahaha!

4 comentários:

Mariana Pimentel. disse...

Há tempos que eu ando por aqui sem fazer barulho (rs), por vergonha, mas sempre leitora de seus textos, e que maravilhosos! ( elogios são clichês por aqui, mas eu, por me encontrar muito em suas palavras, agora tive que dizê-lo...hmm, será que é por que és pisciana, também! hahaha. Pois é, mais uma por aqui... abraço.

Pirajá disse...

Sou de Aquário. Isso quer dizer que você está dentro de mim, Magrela...

Alex Pitta disse...

No corpo entrege, um intocável e profundo dar-se, escondido nas sombras e cicatrizes do medo.






P.S.: Se no próximo Sextas Poéticas a senhora não aparecer, não fale mais comigo!! XD

Por que você faz poema? disse...

Putas não apenas choram com Dolores. Choram no silêncio do quarto.