22 de jun. de 2011

No soul power


A loucura me disse uma vez que eu deveria jogar todas as lembranças fora, junto com os cacos de vidro e os potes de mel. Não lembro das palavras exatas, nem do seu timbre de voz, tampouco lembro a direção que o vento soprava naquele momento. Mas quando coloquei a mão no peito senti a marca que aquele conselho deixara. Um buraco fundo e tão fundo que pude sentir você dentro de mim pedindo socorro.
Demorei pra acreditar que era você e não eu que chorava.

19 de mai. de 2011

No dia em que Carlos morreu

No dia em que Carlos morreu, lembro de ter amanhecido com as têmporas molhadas de suor. Não sei de que adiantará essa informação frente à gravidade dos fatos que se sucederam ao longo do dia, mas era impossível não notar o calor anormal que fizera naquela madrugada e permanecera durante o dia inteiro. Lembro de ter acordado, no dia em que Carlos morreu, mais cedo que o habitual, o que era deveras estranho, porque quase não havia luminosidade pra me acordar, apenas um filete de luz que escapava pelas cortinas desbotadas e iluminava a parte interna da minha coxa esquerda. Acabo de me lembrar vagamente que no dia em que Carlos morreu, levantei da cama com um sentimento estranho, que presumi ser resquício de um sonho infeliz. Talvez isso e não o calor, me impeliu a levantar da cama cedo, antes que o dia clareasse por completo. Talvez a sensação latente de que algo aconteceria naquele dia e que esse algo mudaria pra sempre o destino de alguém. Não acredito nessas coisas. Ou melhor, não acreditava, até o dia em que Carlos morreu, levando consigo toda a minha descrença.
Trabalhei como de costume, no dia em que Carlos morreu. Andei pelas ruas da cidade observando as lavadeiras gordas equilibrando imensas bacias de água na cabeça, vi meninos pretos de olhos pretos e sorrisos amarelos brincarem de bola de meia no meio da rua, comprimentei vendedores de pipoca com seus carrinhos de pipoca cor-de-rosa. Tudo parecia normal, no dia em que Carlos morreu. Exceto o calor. Fazia calor demais. Fazia calor como nunca antes.
Anunciaram no telejornal a morte de Carlos. Sujeito caucasiano, mais ou menos 30 anos, encontrado morto no cais com um tiro certeiro no meio da testa. Crime passional, sua amante é a principal suspeita. Eu - pensei. Desejei. Não era eu. Não poderia ser eu, pelo simples fato de que sequer saberia da existência de Carlos se não fosse a sua morte e o anúncio da sua morte no noticiário da televisão.
Minha vida faria muito mais sentido se fosse eu a assassina de Carlos. Se fosse eu que tivesse empunhado a arma que tirou a vida de Carlos. Se ao menos um dia - não tão ordinário por causa do calor - eu tivesse usado a minha vida pra algo mais útil que consumir meus minutos apenas com a mediocridade da minha existência.

22 de mar. de 2011

Minimalismo

Yellow eyes!
Foto por Valentine Fonseca

Ele me lembra alguém, esses olhos rasgados que transformam-o quase em felino me lembram alguém que amei há bastante tempo - tanto tempo sem amar que nem bem lembro do gosto - mas esse olhar, esse olhar e esse jeito de andar - reparo agora que se levantou - manso desse jeito, andar de gato, como se já não bastassem o par de olhos rasgados. Furtivamente observo-o. Furtivamente desejo-o. Obssessivamente contemplo-o como quem contempla um quadro recém acabado, resquício de tinta amarela ainda fresca pingando do dedo. E no silêncio do meu olhar o amo, talvez por isso o amo, tanto seus olhos de gato, tanto seu andar macio, tanto a lembrança de alguém que amei - faz tanto tempo - o amo tão somente pela certeza de que nunca poderei tê-lo aos pedaços. Só quero os pedaços. O amor por inteiro - faz mesmo tanto tempo - já não me importa mais.

27 de fev. de 2011

Desiderata

Quando dei por mim, estava morta. Atirada displicentemente no sofá da sala, boca escancarada como num convite ao demônio, olhos cerrados como se não ousasse ver a face do meu assassino. Morta, assim, atirada displicentemente no sofá da sala, como se já não estivesse morta muito antes, talvez sempre, desde que conhecida como viva, enfiada em vestidos vermelhos e sorrisos amarelos como se para desfarçar a minha falta de cor. Sempre morta, sempre ciente que morta, sempre descrente que depois de morta e atirada displicentemente no sofá da sala, a vida enfim vivida e terminada faria algum sentido, mas até agora não fez e não fará, diria uma mulher razoável, mas eu nunca fui uma mulher razoável. Nem agora depois de morta e atirada displicentemente no sofá da sala com uma faca cravada na garganta partindo a minha fé em duas. C'est la vie, um samba antigo toca na rádio do vizinho que eu nunca fui com a cara e daqui a pouco tempo, talvez minutos, a empregada topará comigo e maldirá a limpeza do assoalho empapado de sangue e eu não quero mais assistir o quadro da minha morte, não mais ver meu corpo atirado displicentemente no sofá da sala, já que agora eu sei - mas é como se eu sempre soubesse - que o único sentido da minha morte é a consciência de nunca antes ter estado viva.