29 de mai. de 2009

Epopéia dramática de uma donzela burlesca

Foto por Lucas Lobo Azevedo, reeditada por mim! :)


Minha vida sendo um romance
Seria daqueles bem mamão-com-açúcar
Daqueles que vendem em banca, sabe?
Eu a mocinha indecisa
Ele o rapaz ansiado
A gente passaria a maior parte separado
Eu vivendo com outros, ele distraindo outras
Se batendo e se desencontrando

Ou pior:

A gente podia se amar, e não conseguir ficar juntos
Sabe-se lá porque!
Eu seria bem sofrida, minha vida sendo um romance
E veria complicação em tudo
Seria tudo muito complicado
- Oh, meu amado! Eu te amo, mas não podemos ficar juntos!
Frescura, frescura, frescura...
Sabe do que mais?
Minha vida sendo um romance
Eu pularia logo pras últimas páginas
Pra me ver ficando pra sempre com você
Sem complicações
Sem desencontros
Sem controvérsias


Mas pensando bem, que graça teria?
Objetividade é pós-moderno demais
Eu sou romântica

- Até demais, Vanny, até demais...

27 de mai. de 2009

Sempre chuva


Eu tô parada em frente à janela há quase meia hora, e não faço idéia de como vim parar aqui. Não que eu esteja bêbada, ou drogada, ou querendo me matar - eu acho que não. Eu só acabei parando aqui do nada, não sei porque, nem ligo porque. Desde pequena sempre gostei de observar à vida das pessoas, ficar paradinha olhando esses desconhecidos tocando suas vidinhas normais, numa mesmice sufocante. E agora, olhando lá pra baixo, esses pontos miúdos, vozes e buzinas, pernas e rodas, eu percebo que é isso que eu tenho feito com a minha vida até agora. Eu sou apenas uma espectadora do filme que protagonizo.
Nunca fui brilhante, nunca tive um futuro promissor, nunca nem mesmo fui notável. Uma filha mediana, uma aluna mediana, uma amante mediana. Nunca fiz nada digno de interesse, nada que despertasse nos olhos das pessoas um brilho de admiração, nada nada. Nasci medíocre e morrerei medíocre. O que é a minha maior frustração, porque preferia ser porra nenhuma a ser quase alguma coisa. Só gosto de extremos.
Minha vida não é lá essas coisas toda, mas também não é digna de pena. Tenho um emprego que paga as minhas contas no fim do mês, um gato siamês alérgico e com tendências suicídas e um pseudo-namorado que acha que trepa como ninguém. Qualquer pessoa normal ficaria satisfeita e continuaria vivendo feliz e contente. Mas pensando bem, nem sei porque estou pensando nisso agora. Vivi relativamente bem comigo mesma todo esse tempo, mesmo negando a minha anormalidade, mas quem é totalmente normal? Não é esse o problema. O problema é que eu me acostumei a não ser ninguém, não ser ninguém é fácil, prático e cômodo. E pensar em mudar agora, nessa altura do campeonato, me dá um baita de um medo. Eu que nunca tive medo de nada, que aprendi a lutar com os meus fantasmas na marra, a cuidar de mim sozinha, agora me vejo tremendo como uma criança assustada, perante a fatos óbvios, verdades que eu nunca quis enxergar. Sou ninguém. Um ninguém só, infeliz e só, mal-amado e só. E devia ter me importado com isso bem antes.
Não para de chover nessa cidade não? Sempre chuva! Mas tá parecendo que chove por mim agora, talvez seja uma chuva reparadora. Eu tô aqui, parada na janela com um copo de coca quente na mão, rosto no vidro e cabeça no que passo, no que passou, paro e penso no que vou fazer daqui pra frente, pra onde vou fugir e se vou parar de fingir viver uma vida que não é inteiramente minha. A gente sempre tem duas ou várias alternativas, eu só peço pra ter a chance de escolher a minha. Posso viver, posso sobreviver, e posso ser.
E poder nunca me pareceu tão assustador.

24 de mai. de 2009

The way I feel Inside

Eu devaneio e reviro os olhinhos desde miúda!

Tem 18 anos que eu vivo em mim, e a cada dia me encontro menos e me conheço mais. Certeza que minha alma é um hotel de beira de estrada: a cada hora um novo hóspede, uma nova história. A Vanny de ontem não é a mesma de hoje, e provavelmente não voltará amanhã. E hoje eu conheci, sem dúvida alguma, a Vanny mais fantástica que habita em mim.
Provavelmente ela tem a mesma altura e a mesma voz que estou acostumada, os mesmos cabelos rebeldes que eu me acabo para conseguir domar. Mas quando olhei no espelho hoje de manhã, notei que essa não era uma Vanny habitual. Talvez pra terceiros, mas porra, eu me conheço a bastante tempo pra saber diferenciar o brilho dos meus olhos. E quando eu olhei pra aquela cara familiar no espelho, eles estavam tão felizes, mas tão felizes, que eu sorri junto com o meu reflexo, e fiquei ali parada, sorrindo como se aquilo tivesse alguma lógica. A gente se acostuma a sorrir pra estranhos e acha maluquice sorri pra si mesmo. Engraçado, não?
A Vanny que acordou comigo hoje é a Vanny mais feliz que eu posso ser. Porque não é uma felicidade instântanea, como quem ganha um presente almejado, ou conquista algo que quer. É uma felicidade nua, inata, totalmente desprovida de razão. E quem disse que pra ser feliz precisa de um motivo? Essa Vanny sabe disso, ela sempre soube. Eu nunca pensei que pudesse vir a ser tão sábia assim.
Ela sorriu quando enfiou o pé na lama e se atrapalhou toda ao abrir o guarda-chuva. Ela sorriu por poder tomar um banho morno e se embolar como um gatinho na colcha de chinil favorita, podendo cochilar com o barulhinho da chuva caindo e batendo no parapeito da janela. Ela gargalhou vendo fotos antigas, revendo antigas Vannys quase esquecidas: Vanny-bebêfofura, Vanny-sapeca, Vanny-mocinha... Personagens de fases diversas de uma vida só.
Mas ela não ficou triste de saudade, nem nostálgica. Ela sabe que o que passou passou, que foi um tempo bom mas que virá melhores, sempre vem. Tudo muda, a é sorte mudar pra melhor.
A Vanny de hoje só pensa no hoje, porque ela sabe que amanhã pode ter que dar lugar a outra parte de mim. E mesmo se ela tivesse ido embora no meio do meu dia já teria mudado um bocado da minha vida.
Essa Vanny é mais lúcida e menos insensata. Mais racional e até mesmo mais inteligente. Essa Vanny não age por impulso nem deixa o coração falar o tempo todo. Ela sabe que não pode mudar o rumo dos acontecimentos, mas sabe que pode e deve mudar o jeito de ver o que aconteceu. Ela poderia simplesmente comprar um ingresso e assistir de camarote. Mas ela quer dar o show, viver ali, ela quer ser e ela já foi. Piegas, não? Ela é tipicamente uma mulherzinha piegas. Mas devo admitir que sempre senti tesão por pieguisse.
Agora eu estou sentada desejando meias quentes e mais uma xícara de chá, relembrando os momentos banais que eu vivi sendo essa Vanny. Ela os viveu como se não fosse mais fazê-lo, como se não fosse mais viver pra ter dias comuns e normais. E talvez ela tenha razão. Vai que amanhã eu acordo com uma Vanny-depressiva ou uma Vanny-revoltada?
Daqui a uns 10 minutos eu irei dormir com ela. E vou me despedir dela, e desse dia tão ameno que vivi. Mas a única certeza que eu tenho, eu e todos os hóspedes que moram aqui, é que por mais que amanhã seja outro dia o amanhã será sempre do mesmo jeito. Quem muda sou eu e as Vannys que moram em mim.


Salvador, 22 de maio de 2009.

P.s.: Hoje é domingo quase segunda, e acho que essa Vanny resolveu ficar por aqui pelo menos o final de semana. Será que ela vai embora amanhã? Eu, sinceramente, espero que não. Ser feliz de graça assim é tão mais delicioso!

21 de mai. de 2009

Meu pecado só


Meu pecado, meu pecado, meu pecado só
Olhos nesses olhos
Boca nessa boca
Aquele cheiro dessa pele na minha pele só
Na minha pele que deixou de ser minha só
Pele na pele dele
Poros nos poros dele
Meu pecado, meu pecado, meu pecado só
Beijos nos beijos dele
Duas bocas, mil maneiras
Dentes que mastigam num sorriso só
Gostos que me invadem de um jeito só
Meu pecado, meu pecado, meu pecado só
Me joga na lua
Me rouba uns pedaços
Já não sei mais como é ficar somente só
Ficar só sem essa parte que é sua só
Meu pecado, meu pecado, meu pecado só
Só não belisca tanto assim moreno
Só não me aperta tanto assim menino
Que eu tenho medo é de acordar
E estar só.
Meu pecado, meu pecado, meu pecado só