2 de dez. de 2009

Quem se debate é afogado


Pisco os olhos e minhas pálpebras são tão pesadas que eu demoro horas pra conseguir ergue-las de novo. Mas não são horas de verdade e sim segundos que passam numa vagareza cruel que me machuca e transforma a minha dor em coágulos que não consigo dissolver, como se eu tentasse, eu não tento, minha dor é pura resignação. E nesses segundos entre o abrir e fechar do olho, enquanto o breu cobre parcialmente o que eu vejo, parcialmente porque a claridade não deixa que o negro tape minha visão completamente, eu só consigo pensar em Você, e no feixe de coisas que vivi com Você. Nessas cenas mal focadas, Você sempre me aparece sorrindo da mesma maneira que sorria quando estava a sós comigo, mãos sempre muito frias e suadas que me deixavam intrigada em pensar como podiam ficar sempre tão frias e suadas?, seu queixo pontudo rasgando o ar quando Você gargalhava tão alto e rouco que me dava vontade de rir também, e eu ria junto exatamente da mesma maneira que eu dou risada agora, com os olhos sempre fechados pra não ver o destino, mas não exatamente do mesmo jeito, não sentindo exatamente as mesmas coisas que eu sinto agora, essa mistura de saudade-dor-apatia-certeza. Certeza de que eu tenho que ir mesmo, indepedente do praonde e do porquê, eu só preciso sair desse lugar o mais rápido possível, antes que esse mar de evidências inunde tudo isso aqui e me afogue, Você não teve tempo de me ensinar a nadar.

Mas com esses olhos fechados, com esses malditos olhos fechados e essa sua gargalhada ecoando dentro da minha cabeça e chacoalhando meus pensamentos como num liquidificador, comigo mergulhando fundo no mar como os bolsos cheios de pedras pesadas pra não boiar nem depois de morta, pra que ninguém me consiga ver nem depois de morta como Você não me viu a vida toda, Você com seu queixo pontudo ridículo e sua gargalhada ridícula e sua vida perfeita ridícula. E mesmo assim, com o ar rareando nos meus pulmões, mesmo assim e ainda assim, sua cara seu cheiro seu gosto sua ausência me envolvendo como o líquido amniótico envolve um feto, só o barulho do borbulhar do ar que me ainda me resta e me escapa, só o barulho da sua gargalhada cada vez mais longe longe longe e eu afundando como se fosse leve leve leve.


A única e última e mais absolutamente importante coisa que eu penso nessa vida é por que Você não me ensinou a nadar? como se de alguma forma isso fosse me salvar do feixe de coisas que não viverei com Você.

1 de dez. de 2009

Reticências

... e reticências por favor, para ocupar o vão enorme que povoa a minha mente. Meu recurso pra não dizer que não existia nada antes do agora. Mas o que existia - se é mesmo que existiu um vão momento de lucidez - não importa agora. Nada importa agora. Só os calos dos meus pés, o sol forte esquentando a minha cabeça e esse vento que sopra na direção contrária dos meus passos.
Os automóveis, os pedestres, o sinal parado no vermelho. Se eu tivesse coragem, agora quando esse maldito sinal abrisse eu me atiraria em qualquer um desses carros de luxo e colocaria fim em toda essa baboseira que eu não paro de pensar. Quase posso ouvir o barulho seco do meu corpo magro amassando o capô prateado de um sedã de luxo, a poça de sangue tingindo lentamente o asfalto quente de vermelho enquanto eu agonizo até morrer. Mas nem coragem eu tenho. Nunca tive.
O sol cada vez mais quente, o vento soprando cada vez mais forte, talvez se mais forte me arremessaria dali, me levaria voando pra algum lugar bom, eu penso, tão infantil, tão boba, tão menina-amarela-que-ainda-devaneia-com-castelos-flutuantes-feitos-de-pura-matéria-de-amor-perfeito-sem-fim. Como se tudo isso que é bonito, fadas, doendes, sereias, unicórnios, pote de ouro no fim do arco-íris, nuvem de algodão doce, carona em estrela cadente, amor que dura para sempre, existisse. Como se a realidade não tivesse a cor do sangue que corre nas minhas veias depressa, bombeado pelo meu coração que não cansa de palpitar em vão seus anseios. Que suspira e vibra tenso no meu peito, ecoando o aviso prévio da morte sem cor que me assaltará um dia.
A avenida não tem fim. O sol continua lá, parado no meio do céu, a pino, fervendo o resto da minha lucidez. O vento continua soprando, me impedindo um pouco de caminhar, mas eu caminho, não por vontade, não por escolha, pura falta completa de opção. Qualquer lugar será melhor que aqui. Qualquer companhia será melhor que a minha. Qualquer sensação será melhor que essa.
E por fim, mais reticências. Pra dar esperança de que minha vida ainda tem continuação...

21 de nov. de 2009

Costela de Adão

Quem criou você fui eu, baby
Então deixe de ser besta
Vem pra cá
Quem desenhou você fui eu, baby
Então largue de ser besta
Pare de esnobar
Que assim como te inventei
Posso sim desinventar

18 de nov. de 2009

Dimitre

Foto por Maiara Cerqueira

Quando vi Dimitre pela primeira vez, podia jurar que tinham aberto os portões do Olimpo e deixado escapar o deus mais encantador. Ele era o homem mais lindo que eu já tinha visto nos meus trinta e um anos, e posso apostar que se vivesse trinta e uma vezes trinta e um anos, não encontraria outro ser que se pudesse equiparar.
Ele tinha quase dois metros de altura e carnes na medida certa. Cada pedacinho do corpo de Dimitre parecia milimetricamente esculpido pelo mais talentoso artista. Sabe o Davi de Michelangelo? Perdia de goleada. Principalmente por um detalhe, que eu viria a confirmar logo depois.
Nos conhecemos na praia. Eu metida num maiô monocromático, estirada me bronzeando quando fui atingida em cheio na cabeça por uma bola de frescobol. Levantei num salto, já xingando Deus, o mundo e quem mais aparecesse, quando o vi correndo em minha direção em slowmotion, sunga vermelha contrastando com o bronzeado recém adquirido, cabelos extremamente lisos molhados da água do mar: morte súbita, sem direito a extrema unção.
Me pediu mil desculpas, como se precisasse. Lindo daquele jeito, tivesse me acertado um dardo envenenado no peito de próposito, capaz que eu risse e dissesse "que nada broto, ops, morri" só por tá de frente àquela boniteza toda.
As feições, como todo o resto, eram perfeitas. Olhos miúdos e rasgados da cor do céu. Os lábios grossos adornavam uma fileira de dentes perfeitos, formando uma boca que cometia homicídios todas às vezes que se abria num sorriso. Tudo isso eu reparava sorrindo com cara de boba, enquanto ele estendia a mão pra pegar a bendita bola de frescobol. Foram alguns segundos que pareceram umas três horas, eu parada alí debaixo do sol quente, já ficando tonta de tesão ou por causa da pancada, admirando aquela criatura máscula e deliciosa seminua à minha frente, desejando-a como um lobo deseja a sua presa. Viajei legal. Salivei. Enrubeci. Por fim, entreguei a bola, e me enfiei debaixo do primeiro sombreiro que apareceu.
Sorte minha que o moço não ligou pra minha falta de sutileza. Sentou do meu lado, puxou conversa e lá pra quando a maré estava baixando, me ofereceu uma carona de volta pra casa. Olha, nunca fui dessas mulheres de dar no primeiro encontro, ainda mais quando não é um encontro propriamente dito. Mas bem, era Dimitre. E era verão. E estava muito calor, ele me ofereceu um Sex On The Beach - nada mais apropriado - na cozinha da casa simpática dele, e eu ainda estava tonta da bolada... e era Dimitre. Se aquele homem me pedisse um pedaço do céu eu daria um jeito de pegar. Ele só me pediu pra abrir as pernas. Na verdade, nem precisou pedir.
Quando eu dei por mim, já estava me embolando com aquela criatura pelo chão. E pela parede, e pela mesa, e pelo vaso sanitário, e pela máquina de lavar. Aquelas cenas que eu vivi a meia-luz naquela casa de veraneio, não poderiam ser descritas exatamente da maneira que sucederam. Foi puro êxtase, um sonho surreal com gosto de saliva e sal, arranhões pelas costas e mordidas no pescoço. Visitei o paraíso sem ter parado no purgatório. Provei do mais puro veneno e não morri. Ou morri. De tesão, nos braços do maior amante que conheci.
Ao amanhecer fui embora sem me despedir. Ele continuava dormindo, suado e nu, espalhado displicentemente pela cama desforrada. Peguei minhas coisas, meu maiô, minha saída de praia, e saí nas pontas dos pés, sem nem sequer deixar o número do telefone.
Homens como Dimitre foram feitos para apenas uma noite. Eles não são homens de verdade, são semideuses, falhas na nossa lucidez, personificação da boniteza - e mais - um perigo se usados em demasia. Tive minha dose de Dimitre na medida certa, e já podia pegar o ônibus de volta pra vida real.
Mas só por descargo de consciência, escrevi de batom meu email no espelho do banheiro dele. Quem disse que um raio não pode cair duas vezes no mesmo lugar? E bem, ele notavelmente era muita areia pro meu caminhãozinho. Eu precisaria fazer duas viagens.