31 de ago de 2010

Abatida


Lobo, não me peça pra mostrar a minha marca de mulher lamentável. Minha ferida aberta destoando do meu corpo fechado. Sou um pedaço do fígado de Prometeu, dilacerado, esperando o dia nascer pra com ele nascer e nascer e nascer e morrer de novo. Fui abatida. Feito lebre, em tempos de caça. Pele macia, você me diz e me beija, feito lebre em tempos de caça, e se deita comigo e me chama de linda, feito lebre em tempos de caça, e eu morro, caçada. Já é ruim o bastante sem você, não me peça isso, vá embora, e você me beija e me puxa pra mais perto, perto o bastante pra eu sentir a sua respiração na minha nuca, meu corpo febril apertado contra o seu, lebre, meu coração batendo no seu peito, vá embora. Já é ruim o bastante com você. Sou um pedaço de carne que fuma e bebe até altas horas da madrugada e se droga e pensa em você e eu não podia estar pensando - que horas seriam?, era pra você ter ido embora. A lebre corre nos tempos de caça, me arrepio pensando em você, a lebre foge nos tempos de caça, tenho tanto medo, a lebre morre nos tempos de caça, será que você volta?, nunca mais. Fui abatida. Abatida, devorada e deglutida como lebre em tempos de caça.

1 comentários:

Por que você faz poema? disse...

Mas ainda há o dia da caça.