
Ainda há em mim agora resquícios do meu charme. Apesar da decadência insone que bate na minha porta todas as noites com uma garrafa de uísque nacional na mão direita e dois vinis de Tim Maia na esquerda, ainda há - e há quem diga que sempre haverá - o pouco que me resta do meu deselegante charme. O charme que ainda mora nas minhas cicatrizes gêmeas no quadril que não sei como surgiram, o charme nas minhas costelas aparentes, cada vez mais aparentes - culpem as noites de mal-dormir, culpem-nas! - o charme das minhas olheiras arrocheadas e da minha apatia de viver cada dia esperando que o próximo chegue trazendo um pouco mais de agonia. Um pouco do meu charme explodindo em baforadas de fumaça, um pouco do meu charme vertido em litros de vômito cor-de-vinho, um pouco do meu charme grudado nas têmporas suadas cheirando a puro álcool. Ainda há, meu bem, e sempre haverá resquícios do meu charme no lixo em que você me transformou.