24 de out. de 2011
Leve duas moedas para o barqueiro
Hoje eu acordei querendo morrer. Sinto que para que isso sáia de mim, esse veneno que me consome e me corrói aos bocados só tirando todo o sangue do meu corpo, litros e litros de sangue drenado de cada poro. Só assim, e talvez, nem assim. Hoje quando acordei querendo morrer abri os olhos e tinha dois raios de sol no teto na minha direção e só o que eu queria era voltar ao breu total de dentro de mim. Queria estar fora de mim. Desexistir. Ser como uma alma perdida no submundo que por não ter sido sepultada corretamente não tem o direito de fazer a travessia. Ser como ela condenada a vagar por toda a eternidade entre o mundo dos vivos e o mundos dos mortos. Hoje eu acordei querendo morrer e levar comigo toda a dor que estou sentido, tão tangível que a vejo sentada agora na minha frente sorrindo para mim. Ainda não sei se a alimento, se a consumo, se choro abraçada com ela. A única certeza que tenho, é que essa dor, tão material, tão debochada, me acompanhará para sempre. Até que eu tenha coragem. Até que me coloquem nos olhos duas moedas de ouro para Caronte. Mas eu nunca farei a travessia.
2 de out. de 2011
Caixa
Hoje enquanto tentava organizar as minhas gavetas achei uma caixa onde costumava guardar coisas que considerava importantes pra mim. Um caixa pequena, já rasgada, mas entupida de lembranças que algum dia considerei especiais por algum motivo. Achei dentro dela, entre outras coisas: uma foto minha com meu sobrinho recém-nascido, o resultado do vestibular da UFBA de 2009.1 com meu nome circulado, a primeira carta de amor que recebi, um skate de dedo que ganhei de um garoto que eu gostava na 4º série, um chaveiro de Porto de Galinhas e uma foto minha sem os dois dentes da frente. Encontrei também um poema-cordel, que fiz dia 29/11/2008, numa noite em que deveria estar estudando pro vestibular. Fiquei com a barriga quente enquanto lia, então tive vontade de compartilhar aqui no blog. Da época que eu era sonhadora e apaixonada (era?):
Com um amor de brincadeira
Ela sonhava todo dia
E de um todo tentava
Até promessa e simpatia
-" Por favor "- disse uma noite
Pra uma estrela (de) cadente
"- Será que dá pra dessa vez
Ele ser bem diferente?
Alto de topar no teto
Meigo como um passarinho
Meio planta, meio gente
E alegre, um bocadinho"
Passaram dias, meses, sonhos
E a menina a pedir
Deixava de fazer tudo
De comer e de dormir
E de tanto se afundar
Em quereres sem ter fim
Não notou que um belo moço
A olhava do jardim
"-Ah, se ela olhasse pra mim!"
Com um amor de brincadeira
Ela sonhava todo dia
E de um todo tentava
Até promessa e simpatia
-" Por favor "- disse uma noite
Pra uma estrela (de) cadente
"- Será que dá pra dessa vez
Ele ser bem diferente?
Alto de topar no teto
Meigo como um passarinho
Meio planta, meio gente
E alegre, um bocadinho"
Passaram dias, meses, sonhos
E a menina a pedir
Deixava de fazer tudo
De comer e de dormir
E de tanto se afundar
Em quereres sem ter fim
Não notou que um belo moço
A olhava do jardim
"-Ah, se ela olhasse pra mim!"
21 de set. de 2011
Looping

E me oferece um drink okay baby um martini duplo com azeitona sabe azeitona não cereja ele sorri e faz o sinal para o garçom trazer achei que você fosse o tipo que pediria algo doce fico entediada o que uma moça como você faz sozinha em um lugar como esse? olha baby se te contasse você não acreditaria em porra nenhuma e é história longa demais tenho a noite inteira enquanto bar estiver cheio de garrafas okay é que matei um homem a tão pouco tempo que minhas botas ainda estão encharcadas de sangue ele gargalha com a cabeça jogada pra trás é a primeira vez que percebo como ele é bonito eu matei um homem assim parecido com você é o que eu faço de melhor penso quase alto demais não acho que você seja capaz de matar alguém com essas mãos pequenas você não acreditaria bebo todo o conteúdo do copo em uma golada só e já não sinto o gosto nem vejo as cores do mesmo jeito há quanto tempo bebia naquele lugar? talvez duas ou três horas ele me olha com a curiosidade de uma criança em frente a um parque de diversões e decerto não põe fé alguma nas merdas que digo bêbada como um gambá foda-se então por que você o matou? negócios baby ele é tão jovem que tenho pena quer tomar o próximo drink na minha casa enquanto me conta os seus negócios? debocha de mim whatever não sou capaz de dar dois passos sem tropeçar no terceiro o sigo em zig zag por um beco estreito não muito longe dalí o apartamento é escuro e úmido e já na porta de entrada a língua dele escorre pelo meu pescoço o hálito de uísque nacional os músculos bem definidos quase explodindo a camiseta as mãos ligeiras em brasa nos meus seios quase perco o jeito ao enfiar a faca dois dedos acima do umbigo e torcer com toda a força que escondo ter a boca dele ainda molhando a minha sem tempo pra mais um gemido o sangue sujando a minha bota merda adoro essa bota pego um cigarro na bolsa ainda olho mais uma vez pra foto dele 5 mil por um pescoço tão lindo e uma bota perdida ainda está no começo da noite volto cambaleando pro bar e ele está sentado exatamente no mesmo lugar sorrindo e me oferece um drink mas eu parei de beber.
7 de set. de 2011
Cisco
Desde pequena ouço dizer que homem não chora
Mas por vezes ouvi meu pai chorar à noite
Por horas a fio
Escondido na cozinha pra a gente não escutar
E quando algum dos meus irmãos o pegava chorando
Ele sorria e dizia que era um cisco
Era sempre um cisco.
Eu não entendo o porquê dessa história
De homem não chorar
De homem não poder chorar
Porque meu pai quando chorava
Até muito tarde, como um menino com medo
Ficava muito mais humano
Mas por vezes ouvi meu pai chorar à noite
Por horas a fio
Escondido na cozinha pra a gente não escutar
E quando algum dos meus irmãos o pegava chorando
Ele sorria e dizia que era um cisco
Era sempre um cisco.
Eu não entendo o porquê dessa história
De homem não chorar
De homem não poder chorar
Porque meu pai quando chorava
Até muito tarde, como um menino com medo
Ficava muito mais humano
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