19 de set. de 2010
Tu, moça
Anseio do meu coração, tu, moça, e esse teu vestido branco tão branco quanto eu conseguiria me lembrar, depois desse teu vestido branco o branco dos dentes das negras de carne macia que eu aperto com tesão semana sim semana não nos becos pertos do cais não são tão brancos, nem brancos como é a espuma do mar que rebenta nas pedras da praia, nem a espuma é tão branca quanto teu vestido, moça, e esse teu sorriso! nada faz fugir o teu sorriso que mora grudado nas minhas retinas feito filme projetado na tela suja do drive in que eu tanto bolinei mulheres macias, não tão macias quanto tu, moça, não tão belas, não tão adoráveis, nem com pernas tão roliças quanto as tuas ah! tuas pernas grossas e tua sandália de couro amarrada nas tuas canelas grossas, tiras de couro marrom como o marrom dos teus mamilos com gosto de flor, como tu, moça, és flor até nos mamilos, da cabeça aos pés és flor, como eu te gosto, moça, como eu te desejo mais que a qualquer outra coisa, se eu pudesse ah! se eu pudesse te ter exatamente agora, se eu não tivesse tão bêbado por causa de ti e eu me pergunto, moça, se tu me amasse um dia? e eu aqui bêbado pensando em ti e tu muito provavelmente embaixo de algum homem negro branco mulato pobre estivador como eu, miserável como eu e provavelmente apaixonado por ti como eu e como tantos miseráveis que se deixam apaixonar por ti, no teu quarto com móveis velhos corroídos pela maresia e cheiro forte de sardinha e mofo e mijo e porra e teu, teu aroma de flor, és flor, moça, horizontalmente flor, minha mesmo que por alguns trocados e por algumas horas, minha, tu, moça, anseio do meu coração.
31 de ago. de 2010
Abatida

Lobo, não me peça pra mostrar a minha marca de mulher lamentável. Minha ferida aberta destoando do meu corpo fechado. Sou um pedaço do fígado de Prometeu, dilacerado, esperando o dia nascer pra com ele nascer e nascer e nascer e morrer de novo. Fui abatida. Feito lebre, em tempos de caça. Pele macia, você me diz e me beija, feito lebre em tempos de caça, e se deita comigo e me chama de linda, feito lebre em tempos de caça, e eu morro, caçada. Já é ruim o bastante sem você, não me peça isso, vá embora, e você me beija e me puxa pra mais perto, perto o bastante pra eu sentir a sua respiração na minha nuca, meu corpo febril apertado contra o seu, lebre, meu coração batendo no seu peito, vá embora. Já é ruim o bastante com você. Sou um pedaço de carne que fuma e bebe até altas horas da madrugada e se droga e pensa em você e eu não podia estar pensando - que horas seriam?, era pra você ter ido embora. A lebre corre nos tempos de caça, me arrepio pensando em você, a lebre foge nos tempos de caça, tenho tanto medo, a lebre morre nos tempos de caça, será que você volta?, nunca mais. Fui abatida. Abatida, devorada e deglutida como lebre em tempos de caça.
29 de ago. de 2010
Seu Nome
Lembro Seu Nome e a velocidade em que as coisas passam pela minha cabeça - Seu Rosto, Seu Corpo, Seu Cheiro, Seu Jeito, Você - me deixa tonta. Tonta, tento pensar, mas Seu Nome não desgruda do meu ouvido, e se eu tivesse como me transformar em algo naquele segundo seria em Seu Nome, pra não mais ouví-lo e sim sê-lo, fazendo parte pra sempre das coisas que passam pela minha cabeça - Seu Rosto, Seu Corpo, Seu Cheiro, Seu Jeito, Você. Seu Nome me machuca. Seu Nome me irrita. Seu Nome me deixa triste e me faz querer me dar um tiro ou tomar remédio pra dormir até calar Seu Nome que ecoa por todos os buracos da minha cabeça e me ensurdece, Seu Nome e as coisas que caminham pelo meu quarto como se fossem vivas - Seu Rosto, Seu Corpo, Seu Cheiro, Seu Jeito, Você - gritam e não me deixam viver. Eu peço, eu me desespero pra que Você e Seu Nome e as coisas vivas que fazem parte de Você sumam e me deixem em paz mas isso nunca mais poderá acontecer e eu terei que conviver com Seu Nome dissolvendo minha memória até só restar Você e as coisas - Seu Rosto, Seu Corpo, Seu cheiro, Seu Jeito, Você. E falta pouco. Porque Você já sou eu.
23 de ago. de 2010
Pó

Fique comigo, meu bem, mas não me ame. Me excite, me odeie, me recuse, me venda, me estrague, me esqueça, me machuque, me queira bem, mas não me ame.
Se aguente, meu bem, e não me ame. Se aproveite de mim, me faça de gato e sapato, me chame de docinho, fique a sós comigo, me traia com meu amigo, pegue emprestado meu cd favorito, me sirva, me agradeça, mas não me ame.
Desista meu bem, nunca me ame. Me deixe morrer sozinho, me traga café na cama, me apresente à sua família, me ligue todas as noites, me xingue, me mastigue, me trague, me leia, me roube, mas não me ame.
O amor me destrói.
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