30 de jul. de 2009

Passio


E falta ar. Sufoca, oprime o peito, lhe faz arfar - mas você nem liga. Você tá quase morrendo, e nem liga. Porque como diria Quintana, é tão bom morrer de amor e continuar vivendo!
O coração anda derretido que nem manteiga no pão quente, anda pulando mais que pipoca estourando e mais feliz que palhaço em estreia de circo. Você anda sorrindo sozinha feito uma abestalhada, as pessoas ao redor reparam e devem pensar, "meu deus, como ela é piradinha", mas eles não sabem da missa a metade. Não sabem o que passa no filme do seu pensamento, não sabem do formato da imagem que não desgruda da sua retina. E você anda saltitando, e você meio que dança no meio da rua, rodopiando entre os carros, brincando com as crianças, mexendo com os cachorros, dando bom dia boa tarde boa noite muito obrigado como vai o senhor? e a senhora? E as cores da cidade parecem mais vivas, as pessoas parecem mais felizes, os sorrisos mais largos, o verde dos sinais mais demorado. Você não sabe porque, mas você sabe.
Você sabe que pra sonhar não precisa tá dormindo. Não precisa nem deitar, nem mudar de posição. Você sabe que pra voar não precisa ter asas, nem comprar passagem de avião. E que pra enxergar alguma coisa, você não precisa necessariamente olhar com os seus olhos. Não precisa nem ver. Você sente, você sabe. Mas, falta o ar. Sufoca. E sabe do que mais? Você tá adorando.

26 de jul. de 2009

Uma queda

Existiram milhares de Tiagos
Vários Pedros, alguns Otávios
Que tentaram me conquistar

Não que não fossem atraentes
Sexys ou inteligentes
Eles até eram bonitinhos
Mas não, não era pra ser

Aí você me apareceu
E contigo foi diferente
Você foi, hmm, persistente
E eu reparei
Que tinha uma queda por você!


Meu Romeu de olhos castanhos
Eu tenho uma queda por você
De dia, de noite
Aqui ou lá
Eu tenho uma queda, meu amor
Uma maldita queda
Por você


Quando você me beija
Quando você sorri pra mim
E até quando me irrita
Eu esqueço
Perdoô, e até agradeço
Por ter essa tal queda por você

Você acredita, amor?
Que logo eu, fosse me apaixonar
Por alguém, tanto
E tanto e tanto e tanto e tanto assim
Tipo sempre?

E só o que eu sei, meu bem
É que eu quero você
Só quero querer você
E você e você e você
Tipo sempre!

Porque eu tenho essa queda
Essa bendita queda
Por você!

19 de jul. de 2009

Um blues rasgado


Se eu pudesse ou soubesse, eu faria um blues agora mesmo. Um bem rasgado, quase amargo, contando dos meus sentimentos, dos meus pensamentos, das minhas dúvidas, dívidas e ilusões. Talvez ele não se tornasse tão amargo assim. Mas seria rasgado pra que arrancasse aplausos e suspiros da platéia, encantados com a minha dor cantada e interpretada por vozes dramáticas. Minha dor quase inexistente. Vi ou li em algum lugar, que é a dor que sustenta, que dá sentindo a vida. E olhando pra trás, e pros lados, e pra frente, eu vejo que não tenho dor nenhuma pra me sustentar. Eu invento problemas, e equívocos, e tramas traçadas pelo meu fado incerto, a minha bifurcação no final da linha do destino não pode ta aqui em vão, o horóscopo desse mês diz que essa fase vai passar. Eu procuro, eu fantasio, eu viajo, eu fujo, eu me escondo dos outros e de mim mesma, e pior. Tudo isso rápido demais, e mais rápido e rápido e rápido e rápido e rápido como num liquidificador de emoções, e a água não para de cair no meu corpo e bater no azulejo branco do banheiro, e os pensamentos embaralhados embaralhados embaralhados, um filete de sangue escorrendo pela minha coxa e correndo pro ralo, serpenteando até desaparecer quase por completo. Meu destino. Eu queria fazer um blues que contasse toda essa história de não-ser, dessas desventuras amorosas, desse desapego. Eu escreveria esse blues, e seria o último e o único, pois nele eu diria todas as coisas que eu quero dizer, e depois dele eu vou perceber que todo esse falatório só faz sentido mesmo pra mim e pra minha cabeça prolixa como um oceano, mas aí eu já vou ter dito besteiras, já terei feito confissões e promessas, e declarações de amor ao meu amado, declaração de ódio a todas as coisas que eu odeio, ou digo que odeio, mas que serão tão poucas comparadas às coisas que eu adoro que ninguém se importaria. Eu diria tudo a todos de uma só vez, e seria de uma praticidade incrível pra mim, já que eu tenho tanta coisa pra dizer a tanta gente. Meu egoísmo, e egocentrismo e todos esses ismos referentes a mim acabariam, porque esse blues que eu faria falaria só de mim, e tanto de mim, que não teria mais palavras pra me definir, nem necessidade de me rotular. Porque é o que eu faço todos os dias da minha vida, agora eu vejo que não passa de uma necessidade de auto-afirmação, seja lá exatamente o que isso quer dizer, eu não me importo, é só mais uma definição dentre as várias que eu conheço. E todos esses prefixos e sufixos que eu vivo usando, toda essa tentativa exagerada de mostrar pros outros que eu sou, desapareceria com o meu blues. Eu seria uma pessoa melhor depois desse blues, talvez. Eu deixaria de me deprimir, deixaria de ter crises existenciais, porque ora, quem tem crises existenciais depois de escrever um blues rasgado? Mas acontece que eu não posso, nem sei escrever um blues. Não tenho sequer uma dor pra me sustentar, não sou audaciosa o bastante pra mudar o meu destino nem auspiciosa o bastante pra tentar. Não me conheço, nem confio, imagine só, nem confio em mim. Já que é só dobrar a esquina que eu já viro outra, já que é só dormir que eu troco de sonho. E eu torno a embaralhar os pensamentos, e as decepções só aumentam, e as frustrações são uma p.g e eu percebo que nasci pra ser sozinha, e pior, sozinha sem saber escrever um maldito de um blues rasgado e sem uma maldita de uma dor! Sozinha e cheia de pensamentos desorganizados e palavras emboladas na língua, nesse meu mundo de ismos que só tem lugar para mim, se ao menos eu tivesse o conforto do meu blues rasgado, feito por e mim e só pra mim, pra mim, pra mim, pra mim.

Mas se eu soubesse ou pudesse fazer um blues, eu tenho certeza que eu nunca faria.




- Me desculpe. Eu também não consigo entender. Mas por favor, meu bem, apague a luz antes de sair.

17 de jul. de 2009

Mulher de Malandro: Souvenir pra Matheus


Mas eu e ele, entre tantos pares, entre tantos outros e outras, humanos ou não, normais ou não - eu e ele temos uma dúzia de estúpidas coincidências não tão casuais assim. Uma cabeça tão cheia de sonhos e ânsias e devaneios e vontades e ilusões que dariam pra preencher uma vida. Eu disse uma? Uma dúzia delas, nem todas medíocres. E só somos dois. (Ou mil, eu me pergunto e sei que ele também). É parecido também o coração vadio e leviano que não cansa de se apaixonar e palpitar e sofrer e sangrar e sarar, quantas vezes necessárias for pra terminar aquele samba que empacou. Esse rapaz canta e escreve e sonha em trabalhar com cinema e sonha em ser alguém, e ele só tem 18 anos, é míope e tem pensamentos vanguardistas clichês que ele jura que não são tão clichês assim. Você ainda vai bater muito com essa cara bonita, meu rapaz, e como vai e eu também vou, e bateremos juntos, quem mandou aparecer na minha vida? Ah sim, ele é temperamental demais. Deliciosamente temperamental. Sabe que eu já vi esse filme antes? Alías, filme não, ele é uma caricatura, o personagem principal do romance burlesco que eu nunca escrevi - nem escreveria. Aquele rapaz boêmio que morre por um ideal(ou por um rabo de saias, mais aplicável ao caso). Mas tem tanto tanto tempo ainda pela frente, e dentre tantos e tantos, ele é igual a mim, estupidamente e não tão casualmente igual a mim: fracassado, iludido e indecente. E ele só tem 18 anos.


"Pense em mim", ele me disse ao se despedir, tão doce... E né que eu cumpri? Pensei. Tanto que te escrevi um presente. Apenas um, senão você se apaixona por mim e aí já viu: nós dois concordamos que seriam frustrações demais.