23 de abr de 2009

Amor de pôr-do-sol

Sentados na areia branca, esperavam o sol beijar a água. Ele descia manso e denso, amarelo-laranja por detrás das nuvens, ansiando pelo encontro diário com o mar: era amor demais. O garoto pensava no futuro, ela pensava no não ser. Cada um numa freqüência. Mas foi ela que falou, quase num sussurro.

- Eu não sou do seu mundo, não daqui. Mas não me culpe por isso, por não ser, nem poder tentar.

- O que diz? Você pode viver bem comigo, como até então.

- Posso não, não mais. Não vê? Eu sou azul, você é quase sem cor. Não daria. Eu iria te preencher demais, e você não iria sequer me afetar, nem uma gotinha só.

- Isso é um adeus, então.

- Você sabe que não. Eu acho que não consigo viver bem tempo demais sem você. Mas o que ta traçado ta traçado. Você não vive falando do destino? Se for pra ser, é apenas um talvez. E você vai ficar melhor agora sem mim.

Ele já não prestava atenção na água, nem no sol, nem em nada. Ele olhava pra ela como se jamais voltasse a fazer isso. Tinha nós na garganta, tinha orvalho nos olhos. Ela, com os olhos cerrados como que para não se trair, continuou:

- Sabe o que eu notei? Eu sou torta e você insiste em se apoiar aqui. Não cabe mais, cai eu, cai você. Prefiro cair só, pra lhe poupar.

- Um dia você disse pra eu não lhe deixar, você lembra? Me pediu pra te levar comigo. Me fez te prometer. Eu não te entendo, eu não te consigo entender. Mas eu me deixei apaixonar. Não vá, te peço, te rogo, nem tenho medo da humilhação. Não vá.

As nuvens cobriam o sol completamente agora. O céu era todo nuvem, nuvem triste. Assim como estava o coração dele. Nublado.

- Você fica melhor só, lhe prometo, lhe juro. E eu nem to te deixando, fale besteira não menino! O nosso amor ta guardadinho num pote, pra amadurecer. Ainda ta verde, não vingaria. Confie em mim. Há tempos eu ensaio deixar você, pra tentar outros vôos. E estou indo agora pra lhe deixar voar. E quando o fizer, leve todo meu amor consigo. Não, não fale mais. E não me beije. Não quero cometer mais esse crime. Ainda te gosto todo, menino. Se te beijar de novo, vou grudar meu coração em você.

E ela saiu carregada pelo vento, quase a flutuar pela grama, meio gente, meio fada. Coração ainda na areia. E ele olhou o beijo do sol no azul-verde do mar, meio livre, todo preso. O último beijo do sol, rápido e sôfrego nas ondas. E se riu triste.

- Ah é verdade isso. E é amor verde demais!

2 comentários:

HBMS disse...

eu não sou doce de leite porque quero... sua simplicidade é tão grande (nem sei que palavra usar) que é impossível não ser doce ._.

gostei por demais do texto =]

Amanda O. disse...

Você e seus textos brilhantes, irmã. Parabéns mais uma vez!