21 de abr de 2009

Juízo Final

Eu gostava dele, juro que gostava. Ele tinha um gosto diferente de todos os outros homens que foram meus. Não que ele tivesse sido meu, ele era o tipo do homem que nunca era totalmente de ninguém. Mas quando ele me possuía, ficava claro que era eu quem possuía ele. Você consegue entender? Mulher sabe dessas coisas, mesmo mulheres como eu.
Ainda posso sentir o toque da pele dele na minha, aquele cheiro de loção barata e aquela cara que ele fazia quando ia gozar em mim. Eu gostava dele, sabe? Dele todo, de cada defeito. E vocês que pensam que putas não têm sentimentos!
Eu era a puta dele, do meu preto sem vergonha. Eu era a puta que ele se deitava quase todas as noites, a vagabunda que fazia a festa dele na cama, a vadia sem pudores e sem juízo. E nem cobrava por isso.
Meu lençol tem o cheiro de muitos homens, moço, mas é o cheiro dele que eu tento esquecer. Eu tento apagar da minha memória aquele cheiro e aquele gosto, e é quase tão ruim como lembrar dele morrendo. Sabia que ele morreu gozando?
Claro, claro que você sabe. E por isso que eu estou aqui. Pra contar porque eu matei o homem da minha vida. E nem foi difícil na hora. Digo, o ato. Foi bem rápido até.
Agora não vai me julgar, ta legal? Eu o matei mesmo, pode me prender, eu esperava por isso. Não vou dizer o porque. Puta lá precisa de motivo?
Estou entrando em contradição, eu sei. Mas que inferno! Uma pessoa não pode amar alguém e odiar na mesma proporção? Pois era isso que eu sentia por ele: amor e ódio. E eu matei aquele escroto por amor.
Não, eu não vou contar. Pode me bater mais, eu estou acostumada com isso. Pensa que assim vai me fazer falar? Me batendo? Aquele desgraçado vivia me batendo, e eu ainda gostava dele. Na verdade, sempre gostei de levar uns tabefes de vez em quando. Ele me fazia sangrar, ele me humilhava. Ele me xingava de todos os nomes possíveis, aquele puto. E eu adorava.
Eu sei que não vim aqui falar de mim, que porra! E não me mande parar de fumar. Olhe moço, eu sei que estou te desacatando, sei que vou ser presa naquela porra daquela cela, então não enche. Eu quero falar de mim, eu quero falar da minha vida de puta. Porque só assim pra falar sobre ele. Já que minha vida de puta, e minha vida com ele, são uma coisa só.
Eu amava aquele desgraçado. Já disse isso, não? Amava, amava como nunca amei ninguém na minha vida desgraçada. Comi muitos homens, mas cobrava por isso, era meu emprego, meu ganha-pão. E não tenho vergonha não. Um padeiro tem vergonha de vender pão? Um médico tem vergonha de vender saúde? Eu vendo sexo, vendo alívio, vendo companhia. Eu sou o pesadelo de todas as esposas, das mães zelosas, das namoradinhas donzelas. Porque elas sabem que seus homens mais dia ou menos dia vão acabar nos meus braços.
Com ele foi assim. Ele era casado, a mulher esperava um filho. O conheci numa noite como essa, tempo meio chuvoso. Sabe como são as grávidas! Os maridos nunca resistem a nós.
Desde aquela noite, ele me procurava com uma freqüência feroz. Ele todo era feroz, me agarrava com instinto de um bicho, me apertava, grunhia, urrava como um animal. E quando ele gozava fazia aquela maldita cara. Dava tudo pra esquecer aquela maldita expressão! Porque quando lembro dela, sinto o morno do sangue dele me molhar a pele, tingir minha cama e minha retina de vermelho escuro. E sinto de novo o meu coração se partir em mil e morrer com ele. Aquele corpo tombando pesado no meu, aquele corpo enorme que se satisfazia do meu, que me abusava. Aquele corpo de homem, do meu homem! Mas não dava mais. Eu tinha que mata-lo.
Ele jamais seria meu. Eu sempre soube disso, mas ultimamente tava se tornando insuportável. Ele ia embora com ela, e com a maldita filha deles. Tomara que ela um dia venha a ser uma vagabunda como a amante do pai dele. Não me mande calar a boca! Eu falo como eu quiser, inferno! Eles iam embora, ele iria me deixar. Eu não suportaria isso. Suportava que ele vivesse com elas, que dividissem um teto, uma família. Porque eu sabia que quase todas as noites ele seria meu. Mas agora não. Ele estava me deixando, e eu nunca fui mulher de perder. Nunca. Aquela velha história clichê de não ser de mais ninguém, confesso.
Agora ta bom pra você? Um crime passional cometido por uma puta que não tem nem onde cair morta! Daria uma boa matéria de jornal. E você pensando que alguém tinha me dado dinheiro pra eu fazer isso. Nunca mataria o meu homem, por dinheiro nenhum. Matei por amor, por egoísmo, por vaidade. Matei, e por mais que isso me doa, mataria de novo, e de novo e de novo.
Só queria poder esquecer a cara que ele fazia quando ia gozar em mim...

4 comentários:

coffee and cigarettes disse...

caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalho, que foda, Ny! Muito bom mesmo! É por iso que sou sua fã :D

Amanda O. disse...

Confesso que não lembro a cara que eu fazia quando gozava contigo. Momento macho mode on*

Maiara. disse...

Sou sua fã. [2]
E você é foda demais.

Mónica disse...

as primeiras três frases ficaram-me na garganta
e hoje não leio mais. gosto delas na minha garganta e essa fotografia