19 de abr de 2009

Splash Shine

Você ta andando na rua. Você ta só, completamente só, tirando os transeuntes desconhecidos que lhe passam sem fitar o rosto. Mas você não liga, você está só e pensando na sua vidinha de merda. Mesmo que ela não seja tão de merda assim, mas você pensa que ela é de merda, é legal se fazer de vítimas às vezes. Começa a chover. As gotas são quase pedras. Você é totalmente nuvem cinza agora. Os transeuntes desconhecidos fogem da chuva como se esta fosse nociva de alguma forma, digo, terrivelmente nociva. Mas é só choro de céu.
Agora você ta só mais do que nunca, já que os transeuntes sem rostos fugiram da sua chuva. Ou quase tão só, completamente. Você vê alguém vindo na direção contrária a sua, mas a chuva e a miopia não deixam você ver direito aquele rosto desfocado. E você quer enxergá-lo, engraçado, a pouco você não tava nem aí pra cara dos transeuntes desconhecidos. E aquele ponto sem forma, vai aumentando e aumentando até aquela criatura ficar a poucos metros de você. E qual não é a sua surpresa, quando aquela criatura lhe rouba um beijo. Na chuva. Um desconhecido quase sem rosto, lhe beija na chuva, e você não faz nada. Você nem sequer tenta evitar aquilo, acho que era pra acontecer. Agora você só sente as gotas, que caem como se te ferissem, e a língua daquele estranho. A língua te invadindo, o gelado do rosto dele, a lasciva do toque dele. Você não ta mais nem aí agora. E como sempre, se entrega àquele beijo, como se aquilo fosse te salvar de você mesma. Sempre assim, procurando nos outros uma maldita válvula de escape, uma chance de ser completa quando você não consegue se encontrar sozinha. E ele lhe continua a beijar, naquela rua vazia de transeuntes, fedendo a mar, porque momentos antes um homem afobado tinha derrubado um isopor lotado de peixes, não tão frescos, na agonia do começo de chuva. Você pensa que nunca mais vai conseguir comer mariscos sem lembrar daquele beijo, e não sabe ao certo se isso é bom o ruim. Mas foda-se, não é que aquela criatura tinha o beijo mais incrível que a sua boca tinha beijado? Talvez fosse a magia da chuva, nunca antes beijos molhados. Não importava. Na sua cabeça: línguas, gotas, chuva, frio, peixe, vida de merda. Um ser desconhecido, um corpo desconhecido, uma alma desconhecida. Aí você se da conta, empurra aquele corpo molhado. Cacete, você é maluco?, você pergunta, se rindo. O quê?, ele se assusta um pouco, era engraçado ver aquele cara assustado, caramba, ele tinha lhe roubado um beijo, e agora se assustava com aquela frase de você. Esquece, eu acho que te conheço, você grita sem necessidade, ele ta tão perto que você poderia até sussurrar. Me conhece?, ele ainda se surpreendia com a sua falta de lucidez, como alguém pode se surpreender com alguém que se deixa beijar assim, sem mais? Sim, eu sonho com você direto. Agora cale a boca, você manda, como se ele estivesse mesmo falando muita coisa. E você puxa aquela criatura pra mais um abraço, você sente novamente o toque da língua dele na sua, as gotas não param de cair, a rua não para de feder, e você já nem lembra do rosto dele, se é que você tinha prestado atenção nisso. E você não tem mais juízo algum, a chuva já levou todo. E a loucura jajá virá buscar o resto.


P.s.: Samir tá me devendo um desenho! Atualizo ou não depois :)