9 de mai de 2009

Antropofagia

Ela dizia naquele timbre típico das menininhas que amam demais, dizia que estava apaixonada por ele. E tremia, entre um pulsar do coração e outro. Dizia uma porção de coisa sem sentido, que fazia o maior sentido pra ela. E ele não entendia, claro, eles nunca entendem. Não entendia o que aquela menina estava falando, ou porque dizia tudo aquilo com os olhinhos úmidos. E mais ainda, não entendia porque ainda não tinham se beijado. Ela falava e falava, e ele observava o curvar gracioso do canto dos lábios dela, mas não absorvia um terço do que ela dizia. E ela falava com o coração, maldita sina das menininhas que amam demais! Falar com o coração é pior que assaltar uma igreja.
Ela falava sobre amor e ria, e ele ria dela também, pensava que essa garota era mesmo muito bobinha, e por que eles ainda não tinham se beijado? Ele não entendia, claro, eles nunca entendem. Não sabia que ela era uma daquelas que amam demais, que amam intensamente demais. Pra ele, era só mais uma menina bonitinha que estava falando mais do que devia. E ele a beijou. Sôfrego, rápido e seco. E ela tremeu de susto. Você esperava algo diferente de uma menininha que ama demais? Ela queria beijos cartões postais, ele beijava telegramas. Mas ela já estava apaixonada por ele, e não tinha remédio que sarasse isso. Nem um beijo automático, nem penicilina.
Ele sorriu daquela forma que eles fazem quando conseguem alguma coisa. Ela sorriu daquela forma que elas fazem quando estão na frente da coisa mais importante do mundo. Ele riu de novo, ele não entendia. Porque eles nunca entendem? E ela não falava só com o coração. Todas as partes do corpo, gritavam o nome dele. O maior pecado da vida de uma menininha que ama demais! Na vida de uma menina, pra falar a verdade. Dizer que está apaixonada, com o corpo e com a boca, ter seus poros chamando por ele, pedindo por ele, querer estar com ele mais do que estar consigo, é praticamente assinar sentença de morte com hora marcada e carrasco arrumado. Mas sina é sina, destino é destino, e homem é homem. E eles não entendem, eles nunca vão entender.
A nossa menina ainda sorri , cabeça no céu, alma na mão dele. E ele ainda sorri, pés no chão, coração cerrado... e cabeça na próxima.
Mas ela não sabe, claro. As menininhas que amam demais nunca ficam sabendo.

4 comentários:

Chris Arruda disse...

Eu sei!Pq eu nunca amo demais!rs

HBMS disse...

é sina.. é cruz.

Maiara. disse...

as menininhas que amam demais...pois é.

Anônimo disse...

Poucos ocultos seres amam demais, independente de sexo,mas é fato que os homens demandam uma maior satisfação fisiológica, mas esse é um caso a parte, a ciência explica!